Nesta resenha comentarei o texto Psicanálise e Toxicomania: o gozo da droga e a ruptura com o gozo fálico, de Flávia Costa Tótoli e Cristina Moreira Marcos, publicado nos Cadernos de Psicanálise, em 2017. Como minha intenção é apresentar a particularidade da droga na psicose, ao final desta resenha, incluirei alguns exemplos citados no artigo Toxicomanias aplicadas à psicose, de Leonardo Scofield, publicado na Revista Pharmakon Digital, também em 2017.
Tótoli e Marcos (2017) partem da afirmação de que a toxicomania é transestrutural e de que cada sujeito possui sua relação peculiar com a droga. Como forma de diferenciar o uso da droga na neurose e na psicose, explicitam os diferentes modos de gozo, além da relação com o Outro e com o objeto. Trabalham com textos de vários autores que tratam do tema da droga na psicanálise e utilizam como eixo central a afirmação de Lacan, segundo a qual a droga é o que permite a ruptura do casamento do sujeito com o pequeno pipi.
Sob o título Toxicomania e Psicanálise, a primeira parte do artigo busca localizar a inserção da questão da toxicomania na psicanálise. Parte do referencial histórico do século XIX, no qual a psiquiatria considera a toxicomania uma categoria clínica específica relacionada à inclinação impulsiva e aos atos maníacos. Aponta que Freud fala da droga, mas não a coloca diretamente como uma questão para a psicanálise, pois considera que seu uso já se dá como uma tentativa de lidar com o mal-estar.
Recorrendo a alguns comentadores da obra de Lacan, que investigam o tema da droga, Tótoli e Marcos (2017) ressaltam que Lacan não fala em toxicômano, mas em intoxicação, toxicomania, droga, experiência vivida por alucinógenos. Ele ainda afirma que o toxicômano estaria no interior desses termos e que a psicanálise precisaria inventá-lo, torná-lo apto para que se abrisse à prática psicanalítica.
Tótoli e Marcos (2017), na segunda parte do artigo, intitulada O sujeito toxicômano e o Outro, nos apresentam os textos de Lacan nos quais este faz referência à toxicomania. Primeiro, Os complexos familiares, de 1938, em que Lacan afirma que se trataria de uma saída oral como efeito de um traumatismo psíquico, na qual o sujeito tende a reconstruir a harmonia perdida, visando à assimilação perfeita do ser, enfatizando que seria uma resposta frente à experiência de separação que o desmame inscreve na existência. Em Formulações da causalidade psíquica, de 1946, a separação continua em primeiro plano, e Lacan toma a intoxicação como uma tentativa ilusória de resolver a discordância entre o eu e o ser. No texto Subversão do sujeito e a dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960, ele cita a experiência do alucinógeno no lugar do entusiasmo platônico e do samadhi budista.
Para Freda (1997/2005), estas três primeiras referências constituem um conjunto muito preciso, definem um tipo de resposta do sujeito perante o reconhecimento da existência do inconsciente. Sobre a toxicomania, cabe concluir que a intoxicação em todas as suas formas é uma resposta não sintomática que tenta anular a divisão do sujeito, a marca de uma posição subjetiva caracterizada por um “não querer saber nada do inconsciente”. É uma eleição entre a afânise e o significante, e o sujeito opta pela primeira. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 127)
Lacan, no artigo O lugar da psicanálise na medicina, de 1966, comenta que o discurso da ciência sobre a toxicomania gera uma nova definição desta e do estatuto de novos produtos deste mercado, como tranquilizantes e alucinógenos, ordenando novas práticas de cuidados médicos e de uso controlado de tóxicos, e isso se desdobra em direção ao gozo, ou seja, em um deslocamento do gozo.
Em Le nom-dupes errent, de 1973-1974, Lacan faz a equivalência dos três nós borromeanos - real, simbólico, imaginário - e assinala a concepção do inconsciente centrada no império dos significantes, afirmando que, para que o sujeito siga esse caminho, não há necessidade do ‘haxixe’. Fazendo uma brincadeira, Lacan afirma, “a droga não é uma fonte de saber”.
É na última referência, no texto intitulado Clôture aux Journées d’Études des Cartels, de 1975, que Lacan trata da angústia ligada à descoberta do pequeno pipi e da relação com a castração. O que é apresentado aqui é a suposição de uma aproximação entre a droga e “o que permite romper o casamento do sujeito com o pequeno pipi” (Tótoli; Marcos, 2017 apud Lacan, 1975/1976, p. 128). Essa frase serviu como norteamento fundamental na abordagem da toxicomania pela psicanálise lacaniana. Passa-se então, não mais pensar na toxicomania, mas na questão da droga e de seus usos.
Uma vez estabelecida a questão sobre o caráter da toxicomania e o uso da droga para a psicanálise, Tótoli e Marcos (2017) passam a apresentar a relação do sujeito toxicômano e o Outro. Partem do Seminário 3 - As psicoses (1955-1956), no qual Lacan afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e esta é a sua condição, apontando, assim, a primazia do simbólico para o sujeito que tem seu esteio na metáfora do Nome-do-Pai. O sujeito então faz laço social através do discurso, da linguagem, de um agente, de um Outro - que é produto do endereçamento da palavra e tem a função de dar significados a esse sujeito.
Lacan, no Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, de 1963-1964, define a posição do sujeito em relação ao Outro a partir das operações de alienação e separação. Do lado da alienação, temos o sujeito que se identifica com o Outro cheio de significantes. Essa alienação pode ter consequências no nível do gozo e da relação do toxicômano com a droga. Já a separação é a operação em que o sujeito se relaciona com o Outro por meio da falta, separando-se da cadeia significante e indo além do que está inscrito no Outro. A relação do toxicômano com o objeto-droga se impõe sobre a relação simbólica do sujeito e o Outro. Recalcati, J.A.Miller e Freud, trabalham essa questão sob as nomeações de ‘antiamor’ ou ‘ódio’, ódio pelo Outro.
Na última parte do artigo, intitulada O gozo do toxicômano, Tótoli e Marcos (2017) trabalham a diferenciação da toxicomania nas estruturas clínicas: neurose e psicose. Ancoradas em Laurent, outro autor citado no artigo, as autoras afirmam que o uso da droga aponta para uma possibilidade de ruptura com o gozo fálico, sem que haja necessariamente a foraclusão do Nome-do-Pai. Continuam com Recalcati, que diferencia a dependência estrutural-simbólica - configurada pela relação do sujeito e o Outro - e a dependência patológica - do sujeito em relação ao objeto-substância -, na qual o sujeito tende a recusar a dependência estrutural pelo gozo imediato, não filtrado pelo Outro. O objeto-substância promete ao sujeito uma felicidade absoluta. Esse objeto se configura como uma substância real, que pode ser encontrado no mercado, ao contrário do objeto causa do desejo, que seria um resto da Coisa que incita o desejo.
Segundo Recalcati (2003), nas patologias de dependência, o Outro sexo é substituído pela assexualidade da substância e do gozo. O sujeito descarta o encontro com o Outro para, no consumo solitário do objeto, se assegurar da anulação da falta que o Outro introduz inevitavelmente. E aqui entra a questão do ódio e o antiamor: O ódio ocupa o lugar do amor de transferência e assume a forma extrema de recusa desta dependência constituinte do sujeito a respeito do Outro. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 132)
Trabalhando com a questão do gozo, Tótoli e Marcos (2017) introduzem a referência à pulsão de morte. A negação à mediação do Outro instaura um empuxo ao gozo, que pode se tornar destrutivo, configurando a pulsão de morte, que no mundo contemporâneo se manifesta como uma paixão, levando o sujeito a ser parasitado por um excesso de gozo. Para Recalcati, citado pelas autoras, essa é a condição de fundo da toxicomania, em que não existe alteridade, mas um sujeito mantido desesperadamente vivo e cheio de gozo, um gozo idêntico a si mesmo.
Tótoli e Marcos (2017), seguem desenvolvendo a questão do gozo e do falo, apresentando as formas de gozo propostas por Lacan e como elas se organizam. Ressaltam como a anulação da divisão do sujeito abre espaço para o gozo toxicômano, um gozo que é foracluído do lugar do Outro para retornar no real.
... o Outro extrai algo do sujeito ao mesmo tempo em que lhe doa algo. Rouba o gozo e lhe doa um duplo consolo, o consolo do símbolo na condição de eliminar a Coisa do Gozo pela ação do Outro e o consolo do desejo, que só existe devido à falta, ao vazio. Nas patologias da dependência, falham tanto o consolo do símbolo como o do desejo. No lugar da metáfora simbólica, se apresenta a Coisa como tal, e no lugar da metonímia do desejo, se impõe o gozo sempre igual, da mesma Coisa. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 134)
Ancoradas em Lacan, Tótoli e Marcos (2017) apontam que em função da angústia causada pela castração e pela falta, a droga funcionaria como aquela que rompe o casamento do sujeito com o falo. Por isso, o recurso à droga torna difícil o diagnóstico diferencial da toxicomania para a psicanalise, pois é um recurso que camufla a relação do sujeito com o falo. Portanto, é a função do objeto droga que se difere em cada estrutura, pois o gozo extraído do objeto não é o mesmo. Na neurose, a droga pode promover uma ruptura com o gozo fálico, sem que haja foraclusão do Nome-do-Pai, permitindo que o sujeito experimente um gozo cínico, que rechaça o Outro. Já na psicose, não há a ruptura com o gozo fálico, pois já existe a foraclusão.
Trabalhando com os textos de Santiago, Tótoli e Marcos (2017) indicam que o real do corpo se situa em torno do gozo fálico. O toxicômano esbarra nesse casamento que todo sujeito deve contrair entre o gozo fálico e o seu corpo. Haveria então uma infidelidade do toxicômano em face a essa acomodação do gozo que o incomoda. Isso fica em evidência nos casos de toxicomania na neurose. Porém o sujeito psicótico pode valer-se da droga para vários usos, por exemplo, uma identificação ao significante toxicômano, podendo localizar o gozo no campo do Outro; além disso, pode promover o desencadeamento, ou ainda um apaziguamento de um gozo sem limites, uma suplência psicótica com o intento de regular o gozo.
Não podendo utilizar a tese da ruptura do gozo fálico para o uso da droga em casos de psicose, Tótoli e Marcos (2017) recorrem à teoria dos nós trabalhada por Lacan. Nessa articulação, o registro do real passa a ter uma equivalência em relação ao simbólico e ao imaginário, deixando de ser um produto da operação simbólica, como já esteve contemplado anteriormente no ensino de Lacan. As autoras explicam brevemente essa formulação teórica para introduzir o conceito de sinthoma e como Lacan trabalha no caso do escritor James Joyce. Com isso, apresentam a possibilidade da droga, na psicose, ser um sinthoma que oferece ao sujeito psicótico várias soluções de diferentes enodamentos. A droga pode operar como um substituto da função do gozo fálico, ou seja, um remendo imaginário que possibilita ao sujeito uma construção significante. Pode ainda tentar suprir o Nome-do-Pai faltante, amarrando novamente os três registros soltos em uma psicose desencadeada. Pode ser também um objeto que possibilita a entrada no laço social, proporcionando uma suplência ou uma estabilização. A conclusão é que cada sujeito faz uso da droga de modo muito particular, independentemente da estrutura.
Com Scofield (2017), são apresentados três casos clínicos e seus encaminhamentos. O autor entende que o uso da droga viria como uma tentativa, no ser falante, de tratar seus sofrimentos ocasionados numa estrutura psicótica.
A localização do gozo do corpo, sempre excessivo à significação, sem a prótese fálica que o significaria fantasmaticamente, não foi suficiente para João. Ele precisou de um recurso à substância para que este gozo fosse minimizado, permitindo-lhe, a partir da maconha, retomar minimamente uma ordenação na junção mais íntima de seus sentimentos de vida. Para José, transar com a cocaína o protege de se haver com um gozo do Outro sexo, sem precisar responder com a referência fálica da qual é desprovido. No caso de Mário, a identificação a um significante que nomeie para ele uma falta, lá onde ele se nomearia, em ato, enquanto objeto, tem função terapêutica para erguer novamente o corpo do qual ele não se apropria enquanto merda. (Scofield, 2017, p.54)
Para encerrar essa resenha, Scofield (2017) faz uma analogia com o que Lacan diz sobre a própria psicanálise e como ele entende a questão do tratamento clínico da toxicomania.
Lacan ao referir-se à psicanálise... disse que “cada um sabe que a análise tem bons efeitos, que só duram um certo tempo. Isso não impede que seja uma trégua, e que é melhor do que não fazer nada”. As toxicomanias podem ser assim vistas como uma trégua. É exatamente a partir deste ponto que os analistas, orientados por seus desejos e pela psicanálise pura, têm a responsabilidade de sustentar a transferência com os falasseres toxicômanos e psicóticos em um tratamento que permita produzir, para além da droga, um enodamento singular entre o gozo do Um, sempre desmedido, e o Outro, sempre insuficiente. (Scofield, 2017, p.54)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TÓTOLI, F. C. e MARCOS, C.M. Psicanálise e Toxicomania: o gozo da droga e a ruptura com o gozo fálico. Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, v. 39, n. 36, p. 125-140, jan./jun. 2017. Disponível em https://cprj.com.br/cadernos-de-psicanalise-n-36/
SCOFIELD, L. Toxicomanias aplicadas à psicose. Pharmakon Digital, Toxicomanias e Psicoses, v. 3, p. 52-54, nov. 2017. Disponível em https://pharmakondigital.com/category/2017-novembro-volume3/









