sexta-feira, 10 de outubro de 2025

DIGA NÃO, MAS COM EDUCAÇÃO!

Nesta resenha comentarei o texto A Fabricação do Vício, escrito por Henrique Carneiro, que faz parte da LPH - Revista de História, de 2002, e foi apresentado no XIII Encontro Regional de História-Anpuh-MG. O autor dialoga com outras referências bibliográficas e temas de diversas áreas, dispensando a utilização de outros artigos como forma de comparativo. Também optei por trazer duas referências do campo artístico para fazer uma costura com Carneiro (2002). Uma delas, citada por ele, Thomas De Quincey (1785-1859), escritor inglês do século XIX, e outra, contemporânea a ele, Rita Lee (1947-2023), artista da música popular brasileira, do século XX-XXI.

Carneiro (2002) apresenta uma boa síntese da construção discursiva do vício no campo social. Ele se concentra nos séculos XIX e XX, mostrando os desenvolvimentos científicos, políticos, econômicos, filosóficos e culturais envolvidos no processo em que as questões humanas se encontram em mutação. Indica a abrangência de campos necessários quando se trata de dar consistência a um novo discurso que está sendo instaurado. 

O autor citado acima inicia o texto (2002) afirmando que os conceitos médicos têm uma relação direta com a política - ligada ao poder, instituições e classes sociais -, e aponta que talvez o conceito mais controverso do último século e meio seja o de “dependência” de drogas. Inclusive, a própria palavra ‘dependência’ já é uma substituição de outros termos que eram usados para nomear tal questão. Atualmente, aceita-se a distinção de ‘uso’ e ‘abuso’, sendo este último o que produz quadros de tolerância, síndrome de abstinência, compulsividade, desestruturação da vida e persistência de consumo apesar dos efeitos nocivos.

A demonização do “drogado” e a construção de um significado suposto para o conceito “droga” alcança na época contemporânea um auge inédito. Um fantasma ronda o mundo, o fantasma da droga, alçado à condição de pior dos flagelos da humanidade. (CARNEIRO, 2002, p. 2)

Ainda segundo Carneiro (2002), esse personagem – o drogado - é simultâneo a uma série de outros que tomam contornos no início do século XIX, como o “homossexual”, o “alienado”, o “erotônomo”, a “ninfomaníaca” e o “onanista”. Porém, nessa época, beber em demasia não era uma doença. O uso do álcool e de outras drogas poderia ser uma prática condenável, ou virtuosa, mas jamais uma doença. A doença do vício é uma construção do século XIX, mais especificamente a partir de 1804, com um ensaio de Thomas Trotter, Essay Medical, Philosophical and Chemical on Drunkenness, em que ele ‘descobre’ uma nova entidade nosográfica na medicina: o hábito da embriaguez seria uma “doença da mente”.

Nessa primeira parte do texto, Carneiro (2002) apresenta um rol de médicos que investigaram e publicaram considerações sobre os comportamentos considerados moralmente dissonantes da conduta social adequada naquela época, entre eles, o uso de álcool e outras drogas. O campo médico estava debruçado sobre uma espécie de reconfiguração da saúde da população. No entanto, essas pesquisas exigiam o uso das substâncias, para a investigação dos seus efeitos e possíveis patologias mentais. Além disso, era preciso o isolamento químico das drogas puras, que permitia a precisão de doses e facilitava o controle das atividades experimentais.

Em paralelo, a escalada do Estado na disciplinarização dos corpos e na medicalização da população, estabelecia modelos epidemiológicos com o objetivo de uma eugenia social e racial, com o intuito de evitar a deterioração racial supostamente causada pelos degenerados hereditários, entre os quais se incluíam os viciados e bêbados.

...a novidade no século XIX não são os conceitos de vício, dependência ou embriaguez, já existentes, mas a “conjunção de forças políticas, culturais e sociais que deu hegemonia a esses conceitos. A adoção de uma teoria orgânica da doença para explicar os comportamentos de uso imoderado de drogas correspondeu ao clima geral de uma época em que “as teorias da doença foram colocadas dentro da tradição clínica e individualista da medicina como parte da revolução bacteriológica, e em contraste com a abordagem do ambientalismo e da reforma social e sanitária da saúde pública. (CARNEIRO, 2020, p.5, apud BERRIGE, 1994, p. 17)

No século XX, o enfoque orgânico do mal-estar dá lugar ao modelo psicológico, e com isso, o termo “adição” passa a ser usado no caso de sujeitos usuários de álcool e drogas. É um período em que a psicanálise, e outras formas de tratamento, como o behaviorismo, estão em pleno desenvolvimento e influência. Ampliaram-se também os hábitos de consumo de tabaco, opiáceos, café, chá, chocolate, produtos que seduziam as populações mundiais e expandiam as indústrias farmacêutica e química, trazendo novos ramos de comércio muito rentáveis. 

Nesse período, psicanalistas como Freud, Abraham, Ferenczi, Gros, Rado etc, trabalhavam na teoria libidinal e sua relação com a toxicomania. Esta era tratada como uma “regressão libidinal”, com importância etiológica na relação com o erotismo oral e na aproximação com a homossexualidade. A droga ou o álcool destruiriam as sublimações, desgenitalizariam a libido e promoveriam um “curto-circuito” no sujeito desejante, que mergulharia numa desordem de tipo narcisista, com a busca do prazer autoerótico, cujo extremo levaria a uma ruptura com o Outro e a um prazer solitário e autista.

Michel Foucault (1926-1984), trabalhando na sua tese do biopoder, elaborou o conceito de “dispositivo”[1], para se referir à organização social do sexo, instituído pelos poderes. As drogas, com o arsenal de substâncias produtoras de prazer e sensações específicas, também exigiram um dispositivo de normatização. Segundo Carneiro (2002), o controle estatal dos comportamentos se intensificou durante o século XX, com a constituição de uma ampla rede de poderes ligados à vida cotidiana. E, durante o século XXI, vemos essa rede de poderes aumentar significativamente, tanto com a influência da tecnologia e das redes, quanto com a ampliação dos campos de cuidados com a saúde e produtos para o bem-estar.

Carneiro (2002) nos apresenta exemplos importantes e significativos dessas operações de controle e construção dos sujeitos que ficam à margem do cumprimento dessas regras. Aponta políticas públicas que funcionam mais para incitar o desregulamento dos sujeitos do que para a obediência. Pesquisas sobre o comportamento servem para levar a publicidade a aprimorar o apelo ao consumo das mais diversas substâncias. O dinheiro da indústria é reinvestido nos próprios produtos, visando status, criando desejo. O estilo de vida só é atingido por meio de algum tipo de consumo.

Como definir “vício”? Como distinguir hábitos de compulsões? Há hábitos não compulsivos? Carneiro (2002), ancorado nessas questões, aponta o mecanismo do capital como um dos responsáveis por uma sociedade cada vez mais viciada, pois incentiva as formas de consumo de mercadorias e usa poderosos mecanismos de criação de comportamentos compulsivos: roupas, alimentos, carros etc. Adiciona a isso as torcidas esportivas, seja o público, seja o atleta em busca de resultados. Sempre se visa algo a mais.

O mal-estar do nosso século está ligado à noção de codependência. E, nesse sentido, Carneiro (2002) nos traz as campanhas contra drogas que se fundam no slogan “Vida sim, drogas não”. Ele afirma que isso é uma completa contradição, pois faz parecer que existe uma possibilidade de vida sem drogas. Porém, na história da civilização, sempre houve o uso de algum tipo de droga.

Nos anos 1990, o slogan publicitário Diga Não!  foi muito usado nas campanhas de combate às drogas no Brasil. No documentário Ritas, de Oswaldo Santana, lançado em 2025, temos acesso há muitos vídeos da cantora Rita Lee (1947-2023) comentando sobre os mais diversos assuntos, entre eles suas experiências com as drogas. A cantora nunca fez questão de esconder sua relação com álcool e substâncias entorpecentes. Em  uma entrevista do programa Hebe Camargo, de 1997, a propósito do lançamento da música Obrigado não (1997[2]), a cantora critica abertamente o modo como os políticos lidam com a problemática das drogas:

...eu falo assim na música: ‘Diga não às drogas, mas seja educado diga não obrigado.’ Isso daí, porque eu acho essas campanhas antidrogas... Eu sou uma enciclopédia ambulante de drogas, você sabe, porque eu entrei em todas e saí de todas, o que é uma coisa de dinossauro mesmo, de sobrevivência. Mas não faço aquele discursinho Maria Madalena arrependida, aquela coisa moralista, ‘ah, porque culpa, culpa’, eu não tenho, adorei todas as experiências que eu fiz, só que agora beirando os cinquentinha você vai selecionado melhor né, dirigindo o seu vetor mais pro lado espiritual, esotérico, essa coisa toda. Eu acho que essas campanhas antidrogas são muito ineficientes, parece coisa tirada do manual do escoteiro do Pato Donald, não entra na cabeça da criançada, não fixa. Bebidas alcoólicas rolando soltas, com propagandas bacaninhas, e de repente ‘Diga não às drogas’. Peraí, que drogas? e o álcool, sabe. Ou tem uma certa honestidade e coerência, ou então a meninada não engole. (LEE, R. 1997)

No final do texto, Carneiro (2002) nos apresenta os estados de consciência: vigília, sono e sonho, e seus pontos limítrofes identificados como zonas crepusculares. O campo de pesquisa da mente buscou cartografar essas estranhas arquiteturas psíquicas, e como elas poderiam ser reproduzidas artificialmente. Para a simulação do sono, temos os soníferos e anestésicos. O sonho revelou-se reprodutível através do mecanismo das drogas. O experimentalismo das formas da consciência permite desvendar o lado oculto e noturno do espírito. A noção de loucura encontrará no efeito das drogas uma poderosa analogia. Nesse sentido, os pesquisadores da mente seguiram fazendo distinção entre alucinações, ilusões, sonambulismo, efeito de drogas, hipnose etc., promovendo grande controvérsia. “No imaginário do romantismo do século XIX, o ópio aviva as cores das cenas dos sonhos, aprofunda suas sombras e reforça o sentido de suas terríveis realidades” (CARNEIRO, 2002, p.17, apud DE QUINCEY, 1856). 

Thomas De Quincey, nasceu em Manchester, na Inglaterra em 1785. Desde jovem sofreu perdas significativas, com a morte de duas irmãs mais velhas, e posteriormente do pai, que já era uma figura ausente. A mãe, distante e fria, assumindo a condução da família, e também desses lutos, não pôde acolher o garoto. Ele se destacou pela inteligência, mas também mostrou um comportamento errante, não sustentando as escolhas feitas, seja nos estudos, seja nas relações pessoais. Ainda muito jovem, sofre de terríveis dores de cabeça e um amigo sugere o uso do ópio para aliviar. Funcionou, mas o levou a consumir a droga com muita frequência durante décadas. Na obra Confissões de um comedor de ópio (1822/1856), o autor relata experiências, sonhos, devaneios, sofrimentos, oferecendo-nos uma forma muito clara das suas vivências com a substância, em uma compilação do fantástico. O mais interessante sobre a obra é o modo de se produzir um texto, com  aquela qualidade, num estado de torpor. Ele nos revela a figuração dos sonhos e suas experiências infantis, edípicas, traumáticas, impedidas de elaboração. De Quincey (1822/1856) conseguiu descrever seus sonhos e delírios de forma a nos aproximar dos estados alterados de um sujeito sob o efeito das drogas e do que isso pode nos dizer sobre sua subjetividade, antecipando muito do que Freud teria dito a propósito do psiquismo.

Rita Lee (1947-2023) também foi em busca de formas de entender o traumático através de algum tipo de substância, oferecendo meios de viver, de dizer dos atravessamentos e dar possíveis nomeações aos buracos psíquicos, que levam à escolha por uma ou outra droga. Nascida numa família estruturada paulistana, relata apenas um episódio de abuso sexual grave aos seis anos de idade. Diferente do escritor inglês, não é a melancolia que acompanha a cantora, mas a excitação e a fome de experiências. Lee diz que fez praticamente todas as suas músicas sob efeito de algum tipo de droga.

De Quincey escolheu o ópio, encontrou alívio e com ele, veio o bônus da liberdade, do êxtase, das inúmeras formas de imagens para sentimentos e memórias que o ocupavam. Já Lee, buscou uma ampliação de consciência, vivendo num tempo da psicodelia, em que o uso da droga era uma forma de transgredir as regras sociais e a moral corrente. O discurso que foi construído já estava instaurado e era desse lugar que ela podia se colocar à margem. Ela também encontrou momentos de êxtase e liberdade. Os dois, tomados pelos estados inebriados, conseguiram dar vazão aos seus mais íntimos desejos e colocá-los no mundo.

Assim como o vício foi fabricado no campo social, ele também se fabrica nos sujeitos que carregam vazios impossíveis de simbolização. Seria a própria repetição, na condição de pulsão de morte, a fabricação do vício no indivíduo? Nesse caso, todos estaríamos fadados a algum tipo de vício, pois ninguém se livra das garras da pulsão de morte. 

NOTAS

1. Um dispositivo, para Foucault, é um conceito que se refere a um conjunto heterogêneo de elementos, como discursos, instituições, leis, decisões administrativas, afirmações científicas, proposições filosóficas, morais e filantrópicas, que se articulam para responder a uma urgência ou problema específico em um dado momento histórico. Não é uma entidade estática, mas sim uma formação estratégica que opera no campo social para produzir determinados efeitos de poder e subjetivação.

2. Link para assistir o videoclipe da música Obrigado não, de Rita Lee e Roberto de Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=VmZCfDkrKJg 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARREIRA, L., FARATE, C., & VICENTE, H. Morte e Sonhos nas Confissões de Thomas De Quincey. Revista Portuguesa de Psicanálise, Lisboa, PT, vol.40, nº 2, 2020, pp. 60-74. Disponível em https://doi.org/10.51356/rpp.402a5

CARNEIRO, H. A Fabricação do vício. Anais do XIII Encontro Regional de História-Anpuh-MG, LPH-Revista de História, Departamento de História/ICHS/UFOP, Mariana-MG, nº 12, 2002, pp. 9-24. Disponível em http://www.neip.info/downloads/t_hen1.pdf

HERDEIROS DE HOMERO. Confissões de um comedor de ópio. Thomas De Quincey (12 livros para 2024. Livro de abril). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F6Fq4y5g9NQ

LEE, R. Entrevista no programa Hebe Camargo. São Paulo, SBT, 1997.

Disponível em https://f5online.com.br/rita-lee-fala-sobre-drogas-em-entrevista-com-hebe-eu-entrei-em-todas-e-sai-de-todas-video/

_________. Rita Lee uma autobiografia. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2016.


sexta-feira, 25 de julho de 2025

O SILÊNCIO FUNDAMENTAL

"Sob o efeito das drogas, nada importa para você, você só quer se isolar do mundo e alcançar uma paz interior que não se consegue em estado normal."

Kurt Cobain

Nesta resenha comentarei o texto O Silêncio das Drogas, de 2014, escrito por Luis Dario Salamone. Esse artigo consta no livro Tratamento Possível das Toxicomanias com Lacan, de 2014, organizado por Márcia Mezêncio, Márcia Rosa e Maria Wilma Faria. 

A escolha desse texto se justifica porque o tema do silêncio vem sendo meu objeto de estudos há alguns anos. Determinadas referências utilizadas pelo autor já foram lidas por mim anteriormente. Através desse texto, pude me aproximar de outros aspectos do silêncio, especialmente a sua relação com a questão das drogas e dos efeitos no tratamento clínico. Além disso, há uma conexão evidente entre esse artigo e os temas discutidos no módulo III.

Salamone (2014) começa destacando o manto de silêncio que recobre a questão das drogas, mesmo que se fale muito desse tema. Aponta que dinheiro, poder e política - acrescento a violência -, ficam em primeiro plano quando se toca nesse assunto. Porém sua investigação tem foco na relação que o sujeito pode manter com a substância tóxica. Ele trabalha com diversos autores: psicanalistas que abordam o silêncio em relação à estrutura psíquica e à clínica; filósofos que o entendem pelo viés da questão humana; artistas que experimentaram o lugar do intoxicado e ainda assim deixaram obras muito especiais no mundo. 

Na primeira sessão do texto, intitulada O silêncio do recalque e a supressão tóxica, Salamone (2014) observa que deve haver algo estrutural, que leva o sujeito, através da droga, a silenciar certa problemática de forma tão contundente e radical, que por longo tempo não se fale dela. Isso inclusive no campo psicanalítico. Não é preciso a droga para que o sujeito não fale, isso é próprio do recalque nos sujeitos neuróticos. Porém, o viés da psicanálise propõe algo diferente diante desse impedimento. 

Theodor Reik, no seu texto No início é o silêncio, de 1926, apresenta que a própria entrada em análise já é um convite para que a pessoa fale, que saia do silêncio. Nesse mesmo texto, Reik (1926) compara a Zona do Silêncio, - um lugar em Vancouver, no Canadá -, ao recalque.  Ali, os comandantes dos navios não podem ouvir nada que venha do exterior. Durante a análise, o sujeito fala através de ecos desse silêncio do recalque. E, a partir da estranheza desse falar, vai se aproximando da impossibilidade própria da estrutura.

Segundo Salamone (2014), apoiado em Freud, com o consumo de drogas, o sujeito apela não apenas ao recalque, para deixar coisas de lado, mas também às substâncias entorpecentes, que são muito eficazes em fazer desaparecer coisas intoleráveis. No princípio, o recurso ao tóxico poderia servir como um auxílio para diminuição da inibição ou da crítica. Porém, ainda que alguém utilize a embriaguez para se livrar do superego, este não tarda em se apropriar desse recurso para fazer o sujeito gozar através disso.

Os conteúdos incômodos, essas questões que o recalque não consegue afastar, encontram, nas drogas, um auxílio poderoso para tal. Esta é uma forma de silêncio que pode ser mais eficaz do que aquela obtida pela via do recalque, sem o tóxico como ajuda. Mas o que ela coloca em jogo tem suas consequências, não há recalque sem retorno do recalcado, não há cancelamento, por mais tóxico que seja, sem que isso retorne de alguma maneira. Até mesmo quando o sujeito atinge uma "supressão tóxica", o recalcado retorna. E, de um modo geral, não se sabe de que maneira. (SALAMONE, 2014, p. 46)

Na segunda sessão, O silêncio das pulsões e aquele do eu, Salamone (2014) avança no campo da estruturação. Começa apresentando a diferenciação que Lacan faz dos termos taceo e sileo (grifo do autor). Taceo é o silêncio que é uma consequência direta de uma palavra não dita, o fato de calar-se. Sileo, pode ser vinculado ao silêncio estrutural das pulsões. É a diferença entre o silenciado, ficar nas sombras, e o silencioso, o mudo, impossível de colocar em palavras, o real de Lacan. A partir daí, existe a possibilidade de pensar o silêncio de outra natureza, não apenas o do recalque, ou o provocado pela substância tóxica. O autor também aponta que Freud faz referências que remetem a essa outra forma de silêncio ligada à pulsão de morte. O gozo calado, que não passa pelo campo da palavra, tem relação com a pulsão de morte, e é nesse campo que o sujeito é colocado pelas drogas.

O termo adicção, sem dicção, sem palavras, é muito apropriado desde a perspectiva aqui colocada. Porém, nos tratamentos que trabalham sob a tônica em que o sujeito que é adicto deve se identificar com essa posição para atingir um controle do tipo egóico, como nos modelos do AA e NA, esse significante também faz eco. Salamone (2014) não coloca em dúvida os benefícios desse tipo de tratamento, pois ele é bem-sucedido, considerando a eficácia. Mas, a proposta psicanalítica segue uma outra direção, pois se sabe que apostar no fortalecimento do eu, num dado momento, se mostrará prejudicial, pois o eu é débil e o gozo não se deixa manipular.

No Seminário 1 (1953-54), Lacan afirma que “o eu está estruturado exatamente como um sintoma” (LACAN,1953-54, p.25, apud SALAMONE, 2014, p.48). Não é estranho que uma pessoa aposte nisso como solução de tratamento. Mas para a psicanálise, o eu se forma através de identificações e tem como base a alienação. Além disso, o eu tem uma relação difícil com o supereu, pois fica submetido aos seus imperativos. E, nos tratamentos que visam o fortalecimento do eu, há uma reprodução dessas coordenadas. A promessa é de que, uma vez que o eu está mais forte, ele conseguiria resistir às tentações. Depois de uma temporada internado, ou em abstinência, o supereu exterior, na figura de um terapeuta ou conselheiro, continua a dizer o que o eu deve ou não deve fazer. Porém, essa lei do supereu, que muitos analistas colocam como uma tomada de consciência, tem sua outra face, que é a lei da destruição, como explicou Lacan (1953-54), a partir da colocação de Freud, sobre a afinidade do supereu com o isso, ou com a pulsão de morte. Lacan adverte que pretender reorganizar essa relação do eu com o supereu é uma tarefa inútil e arriscada.

Freud desenvolve uma lista de questões associadas ao supereu, a reação terapêutica negativa, o sentimento de culpa, a necessidade de castigo (associada ao mesmo), que encontra sua maior manifestação na melancolia, podendo chegar até ao suicídio. Podemos acrescentar a essa lista o consumo das drogas, já que o trabalho analítico nos mostra a associação do consumo com as questões do supereu. O eu é apresentado por Freud como uma coisa pobre submetida às servidões, seja do mundo exterior, do Isso e do Supcreu. O eu é um adulador, oportunista e mentiroso, embora esteja submetido às ordens do supereu, e não tarda em converter-se em uma fonte de angústia, dessa angústia de morte que se cria entre o supcreu e o eu. (SALAMONE, 2014, p.49) 

Antes de chegar ao silêncio definitivo, que vem do gozo que conduz à pulsão de morte, temos o silêncio do desconhecimento do próprio eu diante das ações do supereu. É função do eu esse desconhecimento, e por isso, ele mente. No sujeito, sua adicção é sabida, por ele e pelos outros, mas quando confrontado, ele nega. Salamone (2014) apresenta, para dar uma ilustração sobre isso, a fábula do sapo e do escorpião, que tem como síntese a máxima “desculpe-me, não queria fazê-lo, mas não consegui evitá-lo, essa é a minha natureza.” (SALAMONE, 2014, p.50). O eu não pode se haver com a sua própria natureza, sua função de desconhecimento é algo que ele não pode renunciar por muito tempo. O eu não pode aceitar a falta, poderá suportá-la por um tempo, mas voltará a essa recusa, antes de chegar ao campo do desejo. O supereu tem uma relação com a lei, mas uma lei insensata, a lei da destruição, que pode chegar a ser devastadora. Por isso, parece inútil o analista tentar assumir uma posição de supereu exterior auxiliar para dizer o que o sujeito deve fazer. E, justamente por isso, o silêncio do analista pode ser o fundo sobre o qual o sujeito pode reencontrar com o seu dizer, com os ecos de um real que o determina. 

Na terceira sessão, O silêncio no tratamento, Salamone (2014) apresenta que o silêncio do analista, por mais que seja sentido pelo analisante como uma espécie de abertura para escutar, deverá leva-lo também a perceber outro silêncio, o estrutural das pulsões, e o que é problemático para ele.

O neurótico irá saindo, então, desse silêncio promovido pelo recalque, redobrado pelo consumo de substâncias; ele voltará a se encontrar com a linguagem para poder, finalmente, enfrentar-se com o silêncio das pulsões, sem sepultá-lo, como tinha feito. (SALAMONE, 2014, p. 52)

No tratamento, a resistência parece ir se deslocando. Inicialmente no próprio silêncio do analista e do analisante, que não reconhece sua adicçao, e não participa do tratamento. Uma vez que ele possa aceder ao tratamento, aparece a resistência que não incide sobre o silêncio estrutural, mas sobre o silêncio conflitivo, levando-o a falar através do sintoma. Na medida em que deixa de consumir, os sintomas aparecem, o que parecia calado, falará no sintoma e poderá ser interpretado, colocando o sujeito novamente em relação ao Outro da alienação, que deverá ser desmantelado. O sujeito passa de uma posição cínica, na qual recusava o Outro com a ajuda dos tóxicos, ao inconsciente, podendo comprovar que esse Outro, com a qual sua neurose se relaciona, não existe. No caminho das drogas o sujeito recusa o caminho do simbólico, recusa o Outro, recusa o inconsciente, tampona a falta, e se coloca num gozo mudo e mortífero. No tratamento, mesmo diante dos limites do simbólico, sabe-se que o Outro é uma construção neurótica diante das pulsões e, a partir daí, se toma decisões, escolhe-se o modo como gozar, como viver.

Salamone (2014), na quarta sessão, Desolação e silêncio, diz que é comum que sujeitos estejam se matando com o consumo de drogas, buscando fugir da morte. Localizar o que está lhe matando pode leva-lo a querer sair. Ele utiliza uma citação de Freud, em Reflexões para os tempos de guerra e morte (2015), que é bem apropriada: "Revelávamos uma tendência inegável para pôr a morte de lado, para eliminá-la da vida. Tentávamos silenciá-la..." (FREUD, 1915/1996, vol. XIV, p.162-181, apud SALAMONE, 2014, p. 54). 

O conto intitulado Silêncio, de Edgar Allan Poe, escrito em 1832, é considerado um texto metafísico. Poe teve problemas com álcool e também fumava ópio. Alguns dos seus contos foram escritos sob efeito dessas substâncias e este é um deles. No conto, apresentado como uma fábula, o demônio fala à cabeça do autor, sobre um lugar lúgubre onde não há calma e nem silêncio. No meio desse clima tumultuoso e barulhento, pode-se ler em um rochedo a palavra desolação. Porém, o demônio vê no topo desse mesmo rochedo um homem, que observa silenciosamente toda essa cena sinistra, num semblante de cansaço e tristeza com a humanidade. O demônio então incita mais temor ao homem e provoca uma tempestade violenta, mas o homem permanece suportando tal situação. O demônio então se irrita, cessa todo esse tumulto e lança a maldição do silêncio. Tudo se acalma, a palavra silêncio toma lugar da palavra desolação no rochedo, o homem empalidece e foge. O demônio ri, mas quem escreve a fábula não pode rir com ele. 

Salamone, (2014) traz esse conto como uma boa metáfora da pulsão de morte. Entende o homem que se afasta dos humanos como um representante da escola cínica, que vive em desolação, que é amaldiçoado pelo demônio, como qualquer um de nós com nosso próprio superego, que deseja calar o pulsional até chegar num silêncio insuportável, em que o real faz um eco perturbador e então, fugir.

Da desolação, no meio do murmúrio permanente, a esse silêncio intolerável. Esse pode ser o ponto de giro que impulsiona um sujeito que consome drogas a urna tentativa de refazer-se com outro estilo de vida. Que, ao chegar a esse limite, a esse silêncio ao qual atracou, acompanhado pelas drogas, no qual a questão se lhe torna insuportável, decida buscar outro caminho. (SALAMONE, 2014, p. 55-56)

Salomone não pretende esgotar o tema. Esse artigo é um capítulo do seu livro, de mesmo título, lançado em 2015, sem tradução para o português. Porém, o diálogo que ele faz com diversas gerações de autores psicanalistas, bem como com escritores de outros campos, como a filosofia e a literatura, nos mostra uma tranquilidade em poder articular muitas fontes diante de uma questão tão delicada e difícil. A apresentação de aspectos clínicos sob o que pode ser oferecido pela psicanálise, bem como o reconhecimento de que um trabalho focado no fortalecimento do eu, também pode ter alguma utilidade em certos tipos de pacientes, é importante, especialmente porque o tratamento da toxicomania tende a estar misturado com questões de criminalidade, políticas etc. O trabalho do psicanalista é destacar o sujeito desses elementos que não estão sob tratamento, para poder fazer alguma aposta que há saídas do mutismo para um silêncio fundamental e criativo. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

POE, E.A. Silêncio (1832). In: Contos. Chicago: Centaur Editions, 2015.

REIK, T. No início é o silêncio. (1926). In: Nasio, J.D. O silêncio na psicanálise, Rio de 

Janeiro, Zahar, 2010

SALAMONE, L.D. O silêncio das drogas In: Mezênio, M.; ROSA, M.; WILMA, M. orgs Tratamento possível das toxicomanias.  Belo Horizonte: Scriptum, 2014.


terça-feira, 27 de maio de 2025

Você é responsável pelo que você come?*

Começo dizendo que não pretendo culpabilizar as pessoas em relação às suas condutas alimentares, muito menos pela imagem dos seus corpos, ainda que o título da minha apresentação possa sugerir isso.

Portanto, levantar a questão sobre a responsabilidade de cada um de nós em relação àquilo que comemos, vai muito além das escolhas individuais e das consequências sobre essas escolhas.

Você tem fome de quê?

O desejo interfere nos avessos do sujeito, seja pela via vivificante, seja pela via compulsiva.

Como psicanalista e semioticista, observo os sujeitos atravessados, e atrapalhados, com as exigências dos discursos sociais, encontrando pouco espaço para o encontro com seus próprios desejos.

Além disso, a relação com os outros, os grandes outros, os que parecem saber o que fazer, e como fazer, para se colocar no campo social, parece cada vez mais difícil e afastada.

Vivemos um momento em que estamos diante de uma mudança considerável das subjetividades.


Temos muitos discursos e pouco desejo. Queremos muitas coisas, mas não queremos impacto em nossas garantias imaginárias. Buscamos sentido para a vida, propósito, e a comida entra na lista de coisas que possam garantir algum destino significativo, seja provocando prazer, seja expressando algum tipo de qualidade de vida. 

Também temos muitas imagens de desejo, imagens que seduzem, provocam, mas rapidamente nos desinteressam, desviando do desejo de fato. São muitos objetos a desejar, como se a realização do desejo significasse um ideal social que devemos cumprir. Mas será mesmo que desejamos?

Além disso, passamos por mudanças dos corpos, que agora são manifestados através de um excesso de imagens. Imagem da perfeição que indica seguir as métricas, higienização e polimento, intervenções para adequação. Me refiro também à imagem, não apenas no sentido daquilo que será visto na forma do corpo, mas também no significado que aquela identidade transmite, ou seja, como uma pessoa é vista no mundo. Em contrapartida, falta a materialidade dos corpos, a concretude, o vivo daquele sujeito através de seu corpo. Há também mudanças dos prazeres, levando as pessoas a tentar chegar ao extremo, como forma de sentir mais, como se o êxtase, o flerte com a morte, fosse o melhor ponto de satisfação. 


Na psicanálise, usamos para isso a expressão gozo. A tomamos pelo campo do Direito, como o gozo sendo um direito estabelecido, e limitado, por uma lei. Direito a gozar de férias, por exemplo. Porém, uma vez um gozo permitido, ele não tem limites, é preciso um limite externo, a Lei, que determine quando parar. No entanto, estamos em um momento em que vivemos sob o discurso de não ter limites, não parar. E os sujeitos têm que conviver com essa gangorra de determinações contraditórias, em que se incentiva o direito ao gozo sem limites, porém, se adverte que isso pode levar à morte, “então pare no limite certo para você”. Porém, não sabemos o limite certo, pois não sabemos exatamente o que satisfaz, quanto satisfaz. 

E para colocar mais um item nesse quadro das novas subjetividades, temos a mudança dos desejos, pois agora, na lógica do consumo, só desejo o que posso ter, mais do mesmo, aquilo que já sei que gosto, que dá prazer, evitando o desconhecido. Porém, a lógica do desejo é a lógica da surpresa, do desconhecido, ou seja, desejar algo enigmático, instigante, que desloca o sujeito de um lugar de garantias e certezas, fazendo com que essa estranheza, que aparece através do desejo, também faça aparecer outras faces do sujeito, novas para ele mesmo. Uma espécie de um outro em si mesmo.

Para localizar melhor as possibilidades de responsabilidade e desejo do sujeito humano, preparei um infográfico mostrando onde estamos no mundo e o que isso significa sobre sermos responsáveis pelo que comemos.

No centro temos o indivíduo. Para a psicanálise, o indivíduo é um ser dividido entre o sujeito do inconsciente, aquele que fala, mesmo que nem sempre ele saiba porque fala, ou o que diz. E o eu, com seu corpo, sua imagem, que funciona em paralelo ao sujeito, como se os dois ficassem tentando se ajustar para ser um.

Antes mesmo dessa pessoa nascer, já existe a estrutura familiar, seus pais e aquilo que se projeta para ela. E, essas projeções, são tanto em relação ao que os pais esperam dela, quanto o que os pais entendem que a sociedade espera dela. Portanto, há um meio ambiente em que essa pessoa está inserida, que diz muito sobre quem ela deve ser.

Paralelamente aos ideais familiares e sociais, há também suas experiências vividas em todas as fases da vida e as formas de gozo a que ela terá acesso, operando nas permissões e proibições diante desse panorama de muitos outros. E por fim, o desejo, aquele pedacinho que falta para completar o quadro, o que chega mais perto de ser algo singular dessa pessoa, que pertença só a ela.

Dentro dos imperativos da cultura contemporânea, só pensando no que se relaciona com a comida, temos a indústria alimentícia, que funciona com força através do marketing e da publicidade para seus produtos serem desejáveis. Para causar esse efeito, os produtos devem ter uma imagem que transmita prazer, um toque de exclusividade e ainda acessibilidade. Temos também a indústria farmacêutica, que oferece tudo que você vai precisar para viver mais e melhor, inclusive muitos produtos que combatem o mal-estar causado pelo consumo das ofertas da indústria de alimentos. A indústria da medicação também trabalha com força através do marketing e da publicidade. Além dessas duas, ainda temos a indústria da saúde e do bem-estar. Sim, essa é uma indústria e por estar travestida de cuidado, pode nos deixar enganar pelos seus encantos. Além dos produtos, que podemos incluir nas indústrias acima, temos os médicos, nutricionistas, educadores físicos, terapeutas, profissionais e espaços de cuidado para nos oferecer formas de prevenção e tratamentos alternativos para dar conta do mal-estar tanto do consumo do que nos faz mal, quanto das exigências emocionais e psicológicas do mundo em que estamos vivendo. 

Temos ainda a indústria do lazer, com restaurantes, viagens, hotéis, diversas formas de viver o prazer que a gente merece, porque nos esforçamos muito para cumprir os ideais que a cultura determina para termos um lugar de sucesso no mundo (contém ironia). Aqui, o outro que é nosso semelhante, tem uma função muito importante, e problemática, pois é ele quem nos mostra o que é gostoso, o que dá prazer, o que também devemos querer. É um referencial, um modelo. Enquanto nas indústrias anteriores temos figuras que ocupam um certo status de saber sobre algum ponto, e com isso nos colocamos como obedientes às suas ofertas, na indústria do lazer, são aqueles que, como nós, estão apenas vivendo experiências. E, como estamos no mesmo patamar, todos temos o direito a experimentar também. Vocês estão vendo que dentro desse campo dos ditames sociais, não há espaço para o sujeito se voltar para si e pensar quem ele é, o que sente, o que precisa, pois, quando é dito para ele tudo que existe, ele apenas vai tentando se encaixar no que acredita que deve se encaixar, ou seja, na promessa de completude e segurança.

Vejam que complexo esse ponto, especialmente num país com as desigualdades sociais, econômicas e culturais como o nosso. Não há como não se produzir impulsos agressivos e de disputa, inveja ou ressentimento pelas injustiças. Todo esse campo da indústria do lazer é exposto nas mídias sociais de massa. Todo mundo vê.

Aquele termo, FOMO - fear of missing out (medo de perder algo, de estar por fora do que está acontecendo), que entra como mais um modo de controle dos sujeitos. VOCETEMQUE! fazer isso, aquilo e aquele outro. Se não fizer, entra na dúvida sobre sua própria existência. Se não estamos consumindo algo e exibindo esse consumo, como o outro vai saber que a gente existe? Aparece aí, uma voz interna, que traz angústia, culpa, sentimento de inferioridade e menos valia, muito sofrimento psíquico.

Lembrando, todos estamos nessa! Ter consciência disso tudo é um jeito de não baixar a guarda e não acreditar que a gente tem o certo a fazer para ficar tudo perfeito.

Os ditames dos pais, avós, parentes, esses são particulares de cada família. Muito baseados nas histórias vividas, na posição social que ocupam e ocuparam, no que foram as regras culturais nos quais foram criados, nos desejos não realizados. Enfim, em muitas projeções e determinações morais com as quais temos que conviver. Aqui, por mais que essas regras de conduta pessoal, para o laço social, sejam impactantes, elas não têm a força massiva dos ditames da cultura. Digo isso considerando nosso momento atual. No contemporâneo, a fala midiática é muito mais forte do que a fala familiar. Essa é uma mudança gigante que ocorreu e que provoca um mal-estar significativo nos sujeitos. 

Vivemos num tempo em que estamos desbussolados, sem um caminho definido e diante de um horizonte expandido. Podemos escolher qualquer coisa e isso dificultou muito todo o processo. É um dos pontos do sem limite, pois quando temos muitas opções, não temos parâmetros para a decisão. Logo, ou escolhe-se nada, ou escolhe-se ‘ficar rico’, que poderia nos dar tudo. Um raciocínio infantil, ancorado num pensamento mágico. 

Fora os ditames citados, que são os discursos nos quais nos atrelamos para fazer certo, para viver a vida como ela deve ser vivida, temos ainda as experiências, que muitas vezes, se mostram as mais contraditórias em relação aos imperativos coletivos. É com elas que nossos corpos são impactados, e onde o desejo pode aparecer. São essas vivências que nossa mente tem que codificar, cifrar e entender. Perceber nisso o que faz bem e o que não faz, o que dá prazer ou desprazer, o que dá apetite ou asco. Estabelecer relações com os outros. Criar memórias, registros internos de representações em que exista algum tipo de base para sustentar a existência. Nessa vertente aprendemos a falar e a calar, vamos decifrando o mundo pelo que nos contam dele e pelo que usufruímos dele. Os encontros são estranhos até que nos familiarizarmos com o novo, colecionando vivências que vão definindo quem somos. 

Na infância, nossas experiências alimentares basicamente vêm da família e da escola. Aprendemos tudo que é fundamental. Estamos num momento tão abertos e despertos para o novo que registramos tudo de forma muito marcante, pois é o momento em que cada coisa tem a sua vez. Na adolescência, além da família, aparecem os amigos por opção e afinidade. Experimentamos algo diferente e transgressor em relação ao que vivemos antes. Fazemos escolhas, acertando e errando, nos colocando no mundo de forma mais individual. Vamos sentir as exigências e os ditames sociais de forma diferente e precisamos saber como responder a isso. Ainda que essa fase seja mais livre, sabemos que com a pressão das redes sociais, e a ausência dos pais na posição de transmissão de regras, os jovens estão vivendo momentos de maior dificuldade em saber limites e possibilidades de transgressão. Nessa fase, temos importantes encontros com os desejos, especialmente o desejo sexual. Porém, o desejo se destaca da imagem, pois não é que eu deseje algo pela imagem que aquilo tem, mas desejo pelo que desperta em mim. Com a força das exigências midiáticas atuais os jovens precisam ter coisas determinadas para serem desejáveis, eles parecem não ter mais espaço para serem seres desejantes.

Na vida adulta, aprendemos a experimentar menos, a funcionar pela ordem das aparentes necessidades. Vamos obedecer mais aos ditames culturais, nos adequar melhor à imagem que acreditamos que esperam de nós. Aqui carregamos as experiências presentes e passadas com a família, algumas vezes mantemos amizades, outras nos relacionamos com colegas de trabalho, ou pais dos amigos dos filhos, sem ter espaço para experiências novas, a não ser diante de alguma crise. Adultos tendem a viver nostálgicos, como se o tempo tivesse passado e não fosse mais possível viver determinadas experiências.

E na vida dos idosos, em que a família ainda está ali, faltam amigos, há muita solidão. Essa talvez seja a maior experiência que se vive quando envelhecemos, a da solidão e de ter de lidar com a falência do corpo, através das questões fisiológicas ou mentais. É preciso esforço, pois as ofertas de novas vivências diminuem.



Essas experiências todas que vivemos são fundamentais para a construção da nossa subjetividade. Através delas temos a educação do gosto, baseado no que a cultura nos oferece, nos hábitos e padrões que se repetem coletivamente. Compartilhamos modos de experimentar gostos, cores, texturas, definindo nosso paladar. Gostar e não gostar não é algo descolado de uma construção baseada nas relações coletivas e sociais.

Temos também uma educação do gozo, que estabelece o que pode e não pode, o que é impulsivo e o que é excessivo. O gozo tem mais força do que o gosto, pois não se ancora num compartilhamento coletivo, mas nos impactos pulsionais, particulares de cada um. É uma exigência do nosso sistema psíquico. Porém, essa educação do gozo passa pela mão pesada da publicidade, é uma construção determinada por um discurso sem outro, a voz da marca falando ininterruptamente para os sujeitos. Se na educação do gosto, na construção dos sentidos, temos as relações com outros sujeitos, como forma de transitar saberes, no gozo, o que temos é um dispositivo de atuação individual, em que agimos e consumimos independente de ter alguém enlaçado conosco. O individualismo é produto dessa nova condição de poder usufruir livremente daquilo que nos coloca diante de uma satisfação plena. Nesse sentido, nos atrelamos ao mesmo tempo ao que devemos e ao que não devemos. 

Há formas de gozo em que o sujeito possa usufruir do que o mundo oferece, sabendo que há um limite para isso, e pode passar pela transa com outros. E há formas de gozo transtornado, compulsivo, em que aquilo que se consome não faz nenhum efeito de satisfação. É o comer solitário, escondido, o comer transtornado. O sujeito busca mais e mais, sem saber o que o faria parar. Por não estar articulado com o que funciona num campo coletivo e compartilhado, num campo simbólico e significante, apenas age numa tentativa de encontrar alguma coisa que dê um alívio para si, ou que dê algum preenchimento para um vazio excessivo.

Série Snack, 2009, Lee Price **

Nos isolamos em parte para tentar calar essa voz que ordena como devemos ter prazer, satisfação e êxtase, e em parte para nos escondermos dos olhares dos nossos pares, dos nossos semelhantes, que acreditamos nos julgar por fazer algo fora dos deveres. Só lembrando, eles também estão sob o mesmo controle vindo da voz da indústria.


Hoje parte dos estados de ansiedade e compulsão que encontramos nos sujeitos tem a ver com o excesso de comandos contraditórios, exigentes e imediatistas, sem que exista algum tipo de âncora amorosa em que se atar. Eros, o amor nas mais variadas formas que possa existir, é um meio de oferecer algum breque para as compulsões. É no corpo do outro, erotizado, que o sujeito encontra uma espécie de pátria. Precisamos de corpos de verdade, que ofereçam, olhar, escuta, toque, que permitam algum tipo de laço afetivo para refrear as buscas por tudo e nada ao mesmo tempo. E é justamente aqui que o desejo tem seu lugar, nessa falta que o outro faz, quando não pode aparecer num lugar de destino.

Há duas faces do desejo, que podem ser baseadas em 2 fórmulas:

O desejo é o desejo do outro: que significa desejo o outro, desejo o que o outro tem, desejo o que o outro quer, e ainda desejo o que o outro diz que satisfaz.

Mas também há o desejo que é simplesmente o desejo de desejar. O movimento do desejo. O entusiasmo diante do encontro com o desejo. O alívio quando se realiza um desejo e não precisa de mais nada. Esse nada, esse vazio, pós realização do desejo, pode ser uma pacificação subjetiva, porque o sujeito não está mais desejando. E a falta poderá ser sentida novamente diante do reencontro com o desejo.

Se o gozo não pode parar de consumir, de funcionar, o desejo é justamente o que não consome, o que abre espaço, o que faz buscar, mas sem preencher.

Somos serem sociais, vivemos coletivamente, por isso o outro, seja lá quem for, tem uma função para cada um de nós. Nascemos dependendo do outro e assim seguimos, até nossa morte. 

Hoje nos isolamos, queremos silêncio e solidão, como forma de podermos estar mais ‘conosco mesmo’. Uma busca de vazio, de espaço, não do outro, mas do grande outro, esse que não para de determinar o que devemos fazer. Esse isolamento que parece que buscamos, pela própria condição em que estamos imersos, com essa exigência em dar as caras para existir, não dura muito, pois aquela voz que angustia, começa a falar novamente dentro de nós, mostrando que não suportamos muito tempo a sós. E aí, cedemos novamente ao grande Outro, fazemos uma selfie para dizer o quanto é bom estar só, ou seja, entrando novamente na roda-viva do gozo, e com isso, na falta de uma brecha que pode ser encontrada pelo desejo.

Desejo não é sobre ‘o quê’ se deseja, mas sobre a função do desejo como forma de vivificar o sujeito, fazê-lo vivo e livre novamente.

Simone de Paula - 20/05/25

* Texto apresentado no Webinário 'Você tem fome de quê?', realizado pelo LegisLab da UFMG, em maio/2025. A transmissão das palestras está no link do youtube no post anterior a este.
**"Uso a comida como metáfora para as formas que distraímos a nós mesmas de estarmos presentes. Esses são locais privados, locais de solidão, e locais incomuns para encontrar alguém se alimentando." (Lee Price)

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Dos ritos alimentares ao Direito

Seguimos falando de Comida (e desejo).

A partir de 13/5/25, a convite da LegisLab UFMG, integrantes do Geosca, eu inclusa, falaram de Comida, Comensalidade, Direito Alimentar, Cultura e muito mais!
Para assistir o webinário, entrar no link da Faculdade de Direito da UFMG faculdadededireitoufmg








Dramas à Mesa - Comida, Arte e Desejo

Em maio de 2025, Isabella Callia, Simone de Paula e Thiago Basile, realizaram o curso Dramas à Mesa - Comida, Arte e Desejo, em parceria com a Escola Ideia Viva e o NUPPAC - núcleo de psicanálise.

O curso ficou gravado e ainda não está disponível para ser acessado.

Nos próximos meses, teremos novas versões desse curso com outros pesquisadores do grupo Geosca. A programação das atividades do grupo podem ser encontradas no instagram do @grupogeosca











O Brasil ao longo do tempo em Vale Tudo

No dia 28/4/25, tivemos uma aula aberta com o título 'O Brasil ao longo do tempo em Vale Tudo'.

Thiago Basile, Isabella Callia e Simone de Paula  apresentaram algumas cenas da novela Vale Tudo de 1988 e 2025, tomando as questões de Comida, articulando com aspectos semióticos e midiáticos.

A aula ficou gravada e pode ser vista no canal YT do Geosca - grupo de estudos os sentidos como alimento.

Geosca




Para continuar acompanhando o trabalho do Thiago Basile, acompanhe o perfil Paulistânia Desvairada no instagram.


Nova turma