Nesta resenha comentarei o texto A Fabricação do Vício, escrito por Henrique Carneiro, que faz parte da LPH - Revista de História, de 2002, e foi apresentado no XIII Encontro Regional de História-Anpuh-MG. O autor dialoga com outras referências bibliográficas e temas de diversas áreas, dispensando a utilização de outros artigos como forma de comparativo. Também optei por trazer duas referências do campo artístico para fazer uma costura com Carneiro (2002). Uma delas, citada por ele, Thomas De Quincey (1785-1859), escritor inglês do século XIX, e outra, contemporânea a ele, Rita Lee (1947-2023), artista da música popular brasileira, do século XX-XXI.
Carneiro (2002) apresenta uma boa síntese da construção discursiva do vício no campo social. Ele se concentra nos séculos XIX e XX, mostrando os desenvolvimentos científicos, políticos, econômicos, filosóficos e culturais envolvidos no processo em que as questões humanas se encontram em mutação. Indica a abrangência de campos necessários quando se trata de dar consistência a um novo discurso que está sendo instaurado.
O autor citado acima inicia o texto (2002) afirmando que os conceitos médicos têm uma relação direta com a política - ligada ao poder, instituições e classes sociais -, e aponta que talvez o conceito mais controverso do último século e meio seja o de “dependência” de drogas. Inclusive, a própria palavra ‘dependência’ já é uma substituição de outros termos que eram usados para nomear tal questão. Atualmente, aceita-se a distinção de ‘uso’ e ‘abuso’, sendo este último o que produz quadros de tolerância, síndrome de abstinência, compulsividade, desestruturação da vida e persistência de consumo apesar dos efeitos nocivos.
A demonização do “drogado” e a construção de um significado suposto para o conceito “droga” alcança na época contemporânea um auge inédito. Um fantasma ronda o mundo, o fantasma da droga, alçado à condição de pior dos flagelos da humanidade. (CARNEIRO, 2002, p. 2)
Ainda segundo Carneiro (2002), esse personagem – o drogado - é simultâneo a uma série de outros que tomam contornos no início do século XIX, como o “homossexual”, o “alienado”, o “erotônomo”, a “ninfomaníaca” e o “onanista”. Porém, nessa época, beber em demasia não era uma doença. O uso do álcool e de outras drogas poderia ser uma prática condenável, ou virtuosa, mas jamais uma doença. A doença do vício é uma construção do século XIX, mais especificamente a partir de 1804, com um ensaio de Thomas Trotter, Essay Medical, Philosophical and Chemical on Drunkenness, em que ele ‘descobre’ uma nova entidade nosográfica na medicina: o hábito da embriaguez seria uma “doença da mente”.
Nessa primeira parte do texto, Carneiro (2002) apresenta um rol de médicos que investigaram e publicaram considerações sobre os comportamentos considerados moralmente dissonantes da conduta social adequada naquela época, entre eles, o uso de álcool e outras drogas. O campo médico estava debruçado sobre uma espécie de reconfiguração da saúde da população. No entanto, essas pesquisas exigiam o uso das substâncias, para a investigação dos seus efeitos e possíveis patologias mentais. Além disso, era preciso o isolamento químico das drogas puras, que permitia a precisão de doses e facilitava o controle das atividades experimentais.
Em paralelo, a escalada do Estado na disciplinarização dos corpos e na medicalização da população, estabelecia modelos epidemiológicos com o objetivo de uma eugenia social e racial, com o intuito de evitar a deterioração racial supostamente causada pelos degenerados hereditários, entre os quais se incluíam os viciados e bêbados.
...a novidade no século XIX não são os conceitos de vício, dependência ou embriaguez, já existentes, mas a “conjunção de forças políticas, culturais e sociais que deu hegemonia a esses conceitos. A adoção de uma teoria orgânica da doença para explicar os comportamentos de uso imoderado de drogas correspondeu ao clima geral de uma época em que “as teorias da doença foram colocadas dentro da tradição clínica e individualista da medicina como parte da revolução bacteriológica, e em contraste com a abordagem do ambientalismo e da reforma social e sanitária da saúde pública. (CARNEIRO, 2020, p.5, apud BERRIGE, 1994, p. 17)
No século XX, o enfoque orgânico do mal-estar dá lugar ao modelo psicológico, e com isso, o termo “adição” passa a ser usado no caso de sujeitos usuários de álcool e drogas. É um período em que a psicanálise, e outras formas de tratamento, como o behaviorismo, estão em pleno desenvolvimento e influência. Ampliaram-se também os hábitos de consumo de tabaco, opiáceos, café, chá, chocolate, produtos que seduziam as populações mundiais e expandiam as indústrias farmacêutica e química, trazendo novos ramos de comércio muito rentáveis.
Nesse período, psicanalistas como Freud, Abraham, Ferenczi, Gros, Rado etc, trabalhavam na teoria libidinal e sua relação com a toxicomania. Esta era tratada como uma “regressão libidinal”, com importância etiológica na relação com o erotismo oral e na aproximação com a homossexualidade. A droga ou o álcool destruiriam as sublimações, desgenitalizariam a libido e promoveriam um “curto-circuito” no sujeito desejante, que mergulharia numa desordem de tipo narcisista, com a busca do prazer autoerótico, cujo extremo levaria a uma ruptura com o Outro e a um prazer solitário e autista.
Michel Foucault (1926-1984), trabalhando na sua tese do biopoder, elaborou o conceito de “dispositivo”[1], para se referir à organização social do sexo, instituído pelos poderes. As drogas, com o arsenal de substâncias produtoras de prazer e sensações específicas, também exigiram um dispositivo de normatização. Segundo Carneiro (2002), o controle estatal dos comportamentos se intensificou durante o século XX, com a constituição de uma ampla rede de poderes ligados à vida cotidiana. E, durante o século XXI, vemos essa rede de poderes aumentar significativamente, tanto com a influência da tecnologia e das redes, quanto com a ampliação dos campos de cuidados com a saúde e produtos para o bem-estar.
Carneiro (2002) nos apresenta exemplos importantes e significativos dessas operações de controle e construção dos sujeitos que ficam à margem do cumprimento dessas regras. Aponta políticas públicas que funcionam mais para incitar o desregulamento dos sujeitos do que para a obediência. Pesquisas sobre o comportamento servem para levar a publicidade a aprimorar o apelo ao consumo das mais diversas substâncias. O dinheiro da indústria é reinvestido nos próprios produtos, visando status, criando desejo. O estilo de vida só é atingido por meio de algum tipo de consumo.
Como definir “vício”? Como distinguir hábitos de compulsões? Há hábitos não compulsivos? Carneiro (2002), ancorado nessas questões, aponta o mecanismo do capital como um dos responsáveis por uma sociedade cada vez mais viciada, pois incentiva as formas de consumo de mercadorias e usa poderosos mecanismos de criação de comportamentos compulsivos: roupas, alimentos, carros etc. Adiciona a isso as torcidas esportivas, seja o público, seja o atleta em busca de resultados. Sempre se visa algo a mais.
O mal-estar do nosso século está ligado à noção de codependência. E, nesse sentido, Carneiro (2002) nos traz as campanhas contra drogas que se fundam no slogan “Vida sim, drogas não”. Ele afirma que isso é uma completa contradição, pois faz parecer que existe uma possibilidade de vida sem drogas. Porém, na história da civilização, sempre houve o uso de algum tipo de droga.
Nos anos 1990, o slogan publicitário Diga Não! foi muito usado nas campanhas de combate às drogas no Brasil. No documentário Ritas, de Oswaldo Santana, lançado em 2025, temos acesso há muitos vídeos da cantora Rita Lee (1947-2023) comentando sobre os mais diversos assuntos, entre eles suas experiências com as drogas. A cantora nunca fez questão de esconder sua relação com álcool e substâncias entorpecentes. Em uma entrevista do programa Hebe Camargo, de 1997, a propósito do lançamento da música Obrigado não (1997[2]), a cantora critica abertamente o modo como os políticos lidam com a problemática das drogas:
...eu falo assim na música: ‘Diga não às drogas, mas seja educado diga não obrigado.’ Isso daí, porque eu acho essas campanhas antidrogas... Eu sou uma enciclopédia ambulante de drogas, você sabe, porque eu entrei em todas e saí de todas, o que é uma coisa de dinossauro mesmo, de sobrevivência. Mas não faço aquele discursinho Maria Madalena arrependida, aquela coisa moralista, ‘ah, porque culpa, culpa’, eu não tenho, adorei todas as experiências que eu fiz, só que agora beirando os cinquentinha você vai selecionado melhor né, dirigindo o seu vetor mais pro lado espiritual, esotérico, essa coisa toda. Eu acho que essas campanhas antidrogas são muito ineficientes, parece coisa tirada do manual do escoteiro do Pato Donald, não entra na cabeça da criançada, não fixa. Bebidas alcoólicas rolando soltas, com propagandas bacaninhas, e de repente ‘Diga não às drogas’. Peraí, que drogas? e o álcool, sabe. Ou tem uma certa honestidade e coerência, ou então a meninada não engole. (LEE, R. 1997)
No final do texto, Carneiro (2002) nos apresenta os estados de consciência: vigília, sono e sonho, e seus pontos limítrofes identificados como zonas crepusculares. O campo de pesquisa da mente buscou cartografar essas estranhas arquiteturas psíquicas, e como elas poderiam ser reproduzidas artificialmente. Para a simulação do sono, temos os soníferos e anestésicos. O sonho revelou-se reprodutível através do mecanismo das drogas. O experimentalismo das formas da consciência permite desvendar o lado oculto e noturno do espírito. A noção de loucura encontrará no efeito das drogas uma poderosa analogia. Nesse sentido, os pesquisadores da mente seguiram fazendo distinção entre alucinações, ilusões, sonambulismo, efeito de drogas, hipnose etc., promovendo grande controvérsia. “No imaginário do romantismo do século XIX, o ópio aviva as cores das cenas dos sonhos, aprofunda suas sombras e reforça o sentido de suas terríveis realidades” (CARNEIRO, 2002, p.17, apud DE QUINCEY, 1856).
Thomas De Quincey, nasceu em Manchester, na Inglaterra em 1785. Desde jovem sofreu perdas significativas, com a morte de duas irmãs mais velhas, e posteriormente do pai, que já era uma figura ausente. A mãe, distante e fria, assumindo a condução da família, e também desses lutos, não pôde acolher o garoto. Ele se destacou pela inteligência, mas também mostrou um comportamento errante, não sustentando as escolhas feitas, seja nos estudos, seja nas relações pessoais. Ainda muito jovem, sofre de terríveis dores de cabeça e um amigo sugere o uso do ópio para aliviar. Funcionou, mas o levou a consumir a droga com muita frequência durante décadas. Na obra Confissões de um comedor de ópio (1822/1856), o autor relata experiências, sonhos, devaneios, sofrimentos, oferecendo-nos uma forma muito clara das suas vivências com a substância, em uma compilação do fantástico. O mais interessante sobre a obra é o modo de se produzir um texto, com aquela qualidade, num estado de torpor. Ele nos revela a figuração dos sonhos e suas experiências infantis, edípicas, traumáticas, impedidas de elaboração. De Quincey (1822/1856) conseguiu descrever seus sonhos e delírios de forma a nos aproximar dos estados alterados de um sujeito sob o efeito das drogas e do que isso pode nos dizer sobre sua subjetividade, antecipando muito do que Freud teria dito a propósito do psiquismo.
Rita Lee (1947-2023) também foi em busca de formas de entender o traumático através de algum tipo de substância, oferecendo meios de viver, de dizer dos atravessamentos e dar possíveis nomeações aos buracos psíquicos, que levam à escolha por uma ou outra droga. Nascida numa família estruturada paulistana, relata apenas um episódio de abuso sexual grave aos seis anos de idade. Diferente do escritor inglês, não é a melancolia que acompanha a cantora, mas a excitação e a fome de experiências. Lee diz que fez praticamente todas as suas músicas sob efeito de algum tipo de droga.
De Quincey escolheu o ópio, encontrou alívio e com ele, veio o bônus da liberdade, do êxtase, das inúmeras formas de imagens para sentimentos e memórias que o ocupavam. Já Lee, buscou uma ampliação de consciência, vivendo num tempo da psicodelia, em que o uso da droga era uma forma de transgredir as regras sociais e a moral corrente. O discurso que foi construído já estava instaurado e era desse lugar que ela podia se colocar à margem. Ela também encontrou momentos de êxtase e liberdade. Os dois, tomados pelos estados inebriados, conseguiram dar vazão aos seus mais íntimos desejos e colocá-los no mundo.
Assim como o vício foi fabricado no campo social, ele também se fabrica nos sujeitos que carregam vazios impossíveis de simbolização. Seria a própria repetição, na condição de pulsão de morte, a fabricação do vício no indivíduo? Nesse caso, todos estaríamos fadados a algum tipo de vício, pois ninguém se livra das garras da pulsão de morte.
NOTAS
1. Um dispositivo, para Foucault, é um conceito que se refere a um conjunto heterogêneo de elementos, como discursos, instituições, leis, decisões administrativas, afirmações científicas, proposições filosóficas, morais e filantrópicas, que se articulam para responder a uma urgência ou problema específico em um dado momento histórico. Não é uma entidade estática, mas sim uma formação estratégica que opera no campo social para produzir determinados efeitos de poder e subjetivação.
2. Link para assistir o videoclipe da música Obrigado não, de Rita Lee e Roberto de Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=VmZCfDkrKJg
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARREIRA, L., FARATE, C., & VICENTE, H. Morte e Sonhos nas Confissões de Thomas De Quincey. Revista Portuguesa de Psicanálise, Lisboa, PT, vol.40, nº 2, 2020, pp. 60-74. Disponível em https://doi.org/10.51356/rpp.402a5
CARNEIRO, H. A Fabricação do vício. Anais do XIII Encontro Regional de História-Anpuh-MG, LPH-Revista de História, Departamento de História/ICHS/UFOP, Mariana-MG, nº 12, 2002, pp. 9-24. Disponível em http://www.neip.info/downloads/t_hen1.pdf
HERDEIROS DE HOMERO. Confissões de um comedor de ópio. Thomas De Quincey (12 livros para 2024. Livro de abril). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F6Fq4y5g9NQ
LEE, R. Entrevista no programa Hebe Camargo. São Paulo, SBT, 1997.
Disponível em https://f5online.com.br/rita-lee-fala-sobre-drogas-em-entrevista-com-hebe-eu-entrei-em-todas-e-sai-de-todas-video/
_________. Rita Lee uma autobiografia. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2016.









