terça-feira, 30 de junho de 2026

QUERO CORPO NA MINHA COMIDA

por Simone de Paula

Este  trabalho  é  uma  articulação  entre  antropofagia  e  erotismo,  pensados  como  operações  da constituição do sujeito, pelo viés da psicanálise. A relação entre Eu e Outro se estabelece através de  encontros  e  desencontros  dos  corpos,  que  podem  ser  os  corpos  reais,  nos  primeiros momentos  da  infância,  mas  também  todos  os  derivados  e  substitutos  dos  corpos  que possibilitam  a  materialidade  simbólica,  como  a  comida,  por  exemplo.  O  que  o  corpo  de  um absorve  do  corpo  do  outro, através  do  alimento?  Como  a  linguagem  transmite  mais  do  que palavras, criando saber, afeto e memória? Como a comida se tornou um fetiche na cultura? A comida,  enquanto  objeto,  se exibe, apela ao  desejo.  Ela  se  porta  como  um elemento  do paradigma  da  vida  saudável, dentro  dos  limites, mas também insiste  no gozo, seja nos transtornos  alimentares, que  se  proliferam, ou nos excessivos vídeos de distorções  dos alimentos. Pergunta-se: o que um corpo suporta?


Confira o texto completo no link: https://revistas.pucsp.br/index.php/leituraflutuante/issue/view/3226

segunda-feira, 8 de junho de 2026

KIDS


Nesta resenha comentarei o artigo A drogadicção na adolescência contemporânea, de Bianca Bergamo Savietto e Marta Resende Cardoso, publicado na revista Psicologia em Estudo, em 2009. Como o objetivo aqui é tratar as especificidades das adicções na infância e na adolescência, acrescento mais uma referência, o filme Kids, de Larry Clark, de 1995, considerado uma obra que explicita um retrato da juventude que segue se intensificando com o passar das décadas. Como suporte de pesquisa em relação ao filme, utilizo uma crítica de jornal, A vida como ela é, do psicanalista Contardo Caligaris, publicada na Folha de São Paulo, em 1995, e uma publicação de 2017, da revista Educação&Realidade, com a tradução do artigo O filme Kids e a política de demonização da juventude, de Henry Giroux, pedagogo norte-americano, de 1996.

Sexo, drogas, abandono escolar, amizades, normas sociais, família, ocupação do espaço urbano, todas essas questões são próprias da fase de transição entre infância e vida adulta. O filme Kids (1995), de Larry Clark, acompanha um grupo de jovens durante o período de 24 horas na cidade de Nova York. A banalização do sexo e as questões com o HIV, a ausência de adultos ocupando funções na vida desses jovens, o uso indiscriminado de álcool e drogas, a apatia, o vazio, a agressividade, tudo isso se apresenta como cine-documental e deixa ao espectador a interpretação do que pode significar. É uma crítica aos jovens ou à sociedade na qual eles se encontram? É uma crítica? A forma que o diretor escolhe para apresentar aquelas imagens sugere que ele se exime de tomar um partido, apenas mostra um recorte de algo que está ali, nas ruas da cidade, e deve ser visto.

O pedagogo Henry Giroux é exemplar em descrever em que lugar colocamos aqueles sujeitos que, pela sua faixa etária, se encontram em uma fase chamada adolescência. Ele critica a imagem que se constrói dos jovens, e denuncia que essa imagem os retira, pouco a pouco da posição de cidadãos no espaço político.

Louvados como um símbolo de esperança no futuro e, ao mesmo tempo, execrados como uma ameaça à ordem social existente, os jovens têm se tornado objetos de ambivalência, presos entre discursos contraditórios e espaços de transição. Mesmo afastados para as margens do poder político na sociedade, os/as jovens se tomaram, não obstante, um foco central da fascinação, do desejo e da autoridade dos adultos. Vivendo, cada vez mais, numa situação em que lhes são negadas oportunidades de auto-definição e de interação política, os/as jovens são transfigurados/as por discursos e práticas que subordinam e contêm a linguagem da liberdade individual, do poder social e da agência crítica. Símbolos de uma democracia em declínio, são identificados/as com uma gama de significantes que negam completamente seu papel de cidadãos e cidadãs ativos/as. Associados/as com a rebelião própria da fase de crescimento, eles/as se tornam a metáfora de uma resistência trivializada. Ao mesmo tempo, a juventude é vista como um local de mercantilização e como um mercado lucrativo. (GIROUX, [1996] 2017, p.124)



Com o artigo A drogadicção na adolescência contemporânea (2009), Savietto e Cardoso analisam a questão das toxicomanias na adolescência, particularizando o aspecto do desamparo. Analisam os novos modelos de família em que esses jovens são criados, e ainda direcionam uma atenção especial para a problemática da chamada transmissão psíquica. Iniciam o artigo com a pergunta que parece espelhar a dúvida dos adultos na atualidade: por que, entre esses adolescentes de hoje, o uso de drogas tornou-se tão intenso? Elas afirmam que as respostas são múltiplas e complexas, somando-se a isso a mudança do paradigma social em que há o privilégio da ação em detrimento dos pensamentos, da satisfação imediata ao invés da espera e o uso do prazer na busca da suspensão da dor. Com isso, propõem a pergunta fundamental do artigo: o aumento do uso de drogas entre jovens seria uma resposta defensiva diante da situação de desamparo, em vista de uma estrutura familiar enfraquecida e fragilizada, marcada por falhas e excessos de várias ordens?

Apoiadas na noção de desamparo originário do psicanalista Mário Sérgio da Costa Pereira, Savietto e Cardoso (2009) apontam que o desamparo ultrapassa a vertente biológica e a insuficiência psicomotora do bebê. Ao se basearem na noção psicanalítica de divisão psíquica do sujeito, entendem que o desamparo estaria relacionado às possibilidades e limites da representação, da simbolização da força pulsional. O desamparo, então, vincula-se à ideia de insuficiência, inicialmente a psicomotora do bebê, mas sobretudo, à insuficiência do aparelho psíquico em dar conta do excesso de excitação pulsional. É um protótipo de toda a situação traumática: “se trata de um estado no qual o sujeito se vê inundado por um excesso de excitações, o qual ultrapassa a sua capacidade de ligação.” (Freud, 1926, apud Savietto; Cardoso, 2009, p. 12). 

Savietto e Cardoso (2009) apresentam a ideia do desamparo no seio da família moderna, utilizando a metáfora de fluidez, proposta por Zygmunt Bauman, como referência à sociedade ocidental contemporânea. 

Na modernidade, segundo o autor, teve lugar um processo de liquefação, de derretimento dos sólidos já estabelecidos, no sentido de um rompimento com o passado e a tradição. Bauman ressalta que este derretimento não deveria eliminar os sólidos de uma vez por todas, e sim, abrir espaço para “novos e aperfeiçoados sólidos” (Bauman, 2001, p. 9), dignos de confiança, que pudessem tornar o mundo previsível e administrável. Não obstante, a substituição dos antigos sólidos por novos que poderiam vir a constituir uma “solidez duradoura” (Bauman, 2001, p. 10) jamais se concretizou. Nesse processo de derretimento, a única ordem que parece ter se mantido foi a econômica. Pode-se dizer que instituições tradicionais como o Estado e a família, assim como padrões e configurações institucionalizados, “liquefizeram-se”, adquirindo um caráter fluido, instável, volúvel, com forte tendência à mutabilidade. (Savietto; Cardoso, 2009, p. 13)

Tanto na esfera pública, quanto na vida privada, o sujeito contemporâneo depara-se com a ausência de autoridades rígidas, de regras e de referenciais estáveis. Encontra-se imerso num contexto em que nada mais está dado, e no qual ele é convocado a construir suas próprias referências e elaborar as normas que regulam a sua existência. O psicanalista Sérvulo A. Figueira, que serve de suporte para Savietto e Cardoso (2009), afirma que o igualitarismo é a nova ideologia reguladora das relações familiares. “A tradicional família hierárquica – na qual os indivíduos são definidos a partir de sua posição, sexo e idade, com numerosas ideias sobre o “certo” e o “errado” – vai ceder espaço para a nova “família igualitária”. (Savietto; Cardoso, 2009, p. 13). 

A aposta de investigar mais a fundo as transformações familiares é particularmente interessante, pois é nesse ambiente que os sujeitos encontram os referenciais para sua constituição. Além disso, no filme Kids (1995), um dos pontos de destaque das análises é a ausência de adultos nas cenas, e quando aparecem, geralmente não assumem uma posição de autoridade ou segurança, pelo contrário, são enxotados pelos jovens. Além disso, como afirma o psicanalista Contardo Caligaris (1995), os jovens se identificam às novas figuras parentais e são produto dessas identificações.

Uma pergunta surda acompanha o espectador de "Kids": cadê os adultos? Sua presença no filme é irrisória: o passeante surrado, um mendigo aleijado, loucos sem casa perdidos na cidade, assistentes sanitárias anônimas, uma mãe fumando em cima de seu bebê, vidrada na televisão, um sapato paterno onde roubar dinheiro... A fala dos adultos é ausente. (...) Os kids lêem o desejo parental além do que os pais imaginam. E hoje, nesta leitura, eles dispõem como nunca de indícios explícitos. A simples adesão de seus pais aos valores sociais de massa destina os kids ao ideal de vida que os orienta (ou desorienta) no filme de Larry Clark. (Caligaris, 1995, p.1)


Savietto e Cardoso (2009), acrescentam o pensamento do sociólogo francês Alain Ehremberg, que se debruça sobre as implicações do contexto cultural contemporâneo na subjetividade. O indivíduo não está mais sendo conduzido por uma ordem exterior, em conformidade com a lei, mas sendo obrigado a julgar por si mesmo, contando apenas com seus recursos internos. Isso resulta em uma ‘doença da responsabilidade’. A sensação que prevalece é a da insuficiência, que novamente aparece aqui. 

Avançando na pesquisa sobre a família contemporânea, Savietto e Cardoso (2009) recorrem a outro sociólogo francês, Remi Lenoir, que trabalha em torno da genealogia da moral familiar. Ele avalia mais um dado nessas transformações e propõe que o ingresso das mulheres no mercado de trabalho teria alterado taxas de casamento e divórcio, adiamento do nascimento de filhos, entre outros aspectos, e que isso teria promovido uma espécie de renovação ética, reforma moral. Ainda que essa abordagem de Lenoir possa ser polêmica, e questionável do ponto de vista feminista, tais alterações são visíveis na sociedade e podem coincidir com as mudanças da posição das mulheres nas suas atribuições socias. Os movimentos feministas promoveram uma alteração significativa em relação à hierarquia e descentralização do poder doméstico, inclusive expondo insistentemente essa nova condição. 

Savietto e Cardoso (2009) incluem mais um ponto interessante que é sobre os impasses de uma transmissão psíquica. Essa não é uma questão simples e o suporte de pesquisa para as autoras vem do psicólogo francês René Kaës, que retorna a Freud. Primeiro, a Totem e Tabu, em que temos a herança arcaica representada pela culpa e interditos transmitidos como efeito do assassinato do pai da horda privema. Depois, a Sobre o narcisismo, uma introdução, em que o sujeito se apoia no narcisismo da geração que o precede, na transmissão de todos os desejos e fantasias não satisfeitas por seus pais. A partir disso, o sujeito se subjetiviza e se coloca no sentido do seu próprio desejo, assumindo seu lugar. Sendo assim, o sujeito do inconsciente é o sujeito da herança. 

Na clínica atual – clínica marcada de maneira significativa pelos estados- limites – a impossibilidade de apropriação (e de transformação, portanto) da herança no processo de transmissão, revela a existência de uma dimensão, de uma espécie de identificação “em negativo” neste processo. (...) A problemática da drogadicção na adolescência contemporânea também aponta - e de maneira particular - para uma dimensão “em negativo” no processo de transmissão, ou seja, para a impossibilidade de esses sujeitos integrarem, em seus psiquismos, a totalidade da herança recebida de seus pais. A presença de elementos “irrepresentáveis” no interior do sujeito produz um efeito, além de ruidoso, altamente “intoxicante”, do qual ele pode, paradoxalmente, buscar se defender por meio da intoxicação pela droga. (...) Poderíamos considerar a drogadicção como uma experiência de construção de um escudo, de contenção à excitação desestruturante. (Savietto: Cardoso, 2009, p. 16)

Trabalhando com a hipótese da problemática do atravessamento geracional de um vivido traumático no incremento da drogadicção na adolescência, Savietto e Cardoso (2009) recorrem a mais dois autores indiscutíveis nas pesquisas sobre a “negatividade” na transmissão, Nicolas Abraham e Maria Torok, que abordam a impossibilidade do luto de um objeto significativo quando aliado a conteúdos indizíveis, que tendem a permanecer encriptados no psiquismo. Abraham e Torok procuram traçar uma distinção essencial entre introjeção e incorporação, dentro do trabalho psíquico. O processo de introjeção indicaria a passagem de objetos, de modo fantasístico, de fora para dentro, uma possibilidade de assimilação do objeto, de integração, contribuindo para um enriquecimento do eu. Já a incorporação, representaria um processo no qual a mediação fantasística falha. Portanto, tomaria o objeto de forma direta, sem transformação – tratar-se-ia de ser o objeto. É uma dificuldade no nível da identificação. A identificação pressupõe uma perda do objeto, um trabalho de luto que engendra a interiorização e a assimilação do objeto, de maneira integrada ao psiquismo. Sem isso, e sem a intermediação da fantasia, o objeto assumirá o estatuto de estranho no interior do aparelho psíquico, que não consegue traduzi-lo, simbolizá-lo, incluí-lo em sua esfera representacional. É um conteúdo herdado, mas que não é possível se apropriar.

Por fim, Savietto e Cardoso (2009), chegam na questão da drogadicção e o intraduzível. Propõem uma compreensão das atuações numa perspectiva de tentativa de domínio do excesso pulsional, numa transgressão, menos no sentido da lei, ou da castração, mas no sentido de uma invasão pulsional, um transbordamento no espaço egóico. Sugerem que a impossibilidade de representação desse excesso faz-se sentir, paradoxalmente, como um vazio.

O psiquismo, submetido à pressão dessa herança “maldita”, da insistência, desde o interior, do traumático, de um excesso pulsional não dominável – estado de passividade, de desamparo – pode tentar reverter tal situação por meio de uma atuação, geralmente, de caráter transgressivo (no sentido fundamental de um atravessamento). O corpo tende a ser convocado – registro do ato – exatamente quando o psiquismo não consegue dar conta, não é capaz de ligar o excesso pulsional. (Savietto; Cardoso, 2009, p.17)


Como conclusão, Savietto e Cardoso (2009) utilizam as considerações do psicanalista Hugo Mayer, que entende que a droga viria ocupar o lugar dos pais faltantes: seja a mãe, em sua função de sustentação, para que o sujeito não caia num vazio abismal; seja o pai, como organizador central de uma cultura que concede o lugar de pertencimento e, ao mesmo tempo, de confronto. As autoras afirmam que uma das possiblidades do ego diante da violência psíquica é a tentativa de reverter essa violência também de forma violenta, reverter a passividade em atividade, em ato. A clínica contemporânea, portanto, apontaria então as fronteiras da representatividade de um conflito no espaço psíquico.

O artigo de Savietto e Cardoso (2009) apresenta a questão proposta de maneira bem fundamentada e com referências de pesquisa importantes e relevantes. No entanto, há certas generalizações e moralismo por parte das autoras. A inclusão do filme Kids (1995), com as análises do ponto de vista da cultura, colabora para ampliar o olhar sobre a questão. Vale lembrar que há o particular de como cada sujeito se coloca singularmente na situação e como sai dela. Além disso, diante de uma mudança geracional importante e definitiva, há passos de construção em coletivo que devem acontecer, que só poderemos avaliar posteriormente, pois a chamada adolescência é tão jovem no processo civilizatório quanto os próprios adolescentes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALIGARIS, C. A vida como ela é. Caderno Mais! Folha de São Paulo. São Paulo, 01/10/1995. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/3.html

GIROUX, H. O filme Kids e a política de demonização da juventude [1996]. Educação&Realidade, v. 21, n. 1, p.123-136, mar/2017. Disponível em https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71648

MAUREY, A. Kids (1995): Algo de novo, nada de velho na juventude. Prosas e Contras. Rio de Janeiro,14/01/21. Disponível em https://prosasecontras.com.br/kids-1995-algo-de-novo-nada-de-velho-na-juventude/

SAVIETTO, B.B. e CARDOSO, M.R. A drogadicção na adolescência contemporânea. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 11-19, jan./mar. 2009. Disponível em https://www.scielo.br/j/pe/a/pJJsxfskQqf4gFmxbFCsmfC/?lang=pt


segunda-feira, 9 de março de 2026

TOXICOMANIAS NA PSICOSE

Nesta resenha comentarei o texto Psicanálise e Toxicomania: o gozo da droga e a ruptura com o gozo fálico, de Flávia Costa Tótoli e Cristina Moreira Marcos, publicado nos Cadernos de Psicanálise, em 2017. Como minha intenção é apresentar a particularidade da droga na psicose, ao final desta resenha, incluirei alguns exemplos citados no artigo Toxicomanias aplicadas à psicose, de Leonardo Scofield, publicado na Revista Pharmakon Digital, também em 2017.

Tótoli e Marcos (2017) partem da afirmação de que a toxicomania é transestrutural e de que cada sujeito possui sua relação peculiar com a droga. Como forma de diferenciar o uso da droga na neurose e na psicose, explicitam os diferentes modos de gozo, além da relação com o Outro e com o objeto. Trabalham com textos de vários autores que tratam do tema da droga na psicanálise e utilizam como eixo central a afirmação de Lacan, segundo a qual a droga é o que permite a ruptura do casamento do sujeito com o pequeno pipi.

Sob o título Toxicomania e Psicanálise, a primeira parte do artigo busca localizar a inserção da questão da toxicomania na psicanálise. Parte do referencial histórico do século XIX, no qual a psiquiatria considera a toxicomania uma categoria clínica específica relacionada à inclinação impulsiva e aos atos maníacos. Aponta que Freud fala da droga, mas não a coloca diretamente como uma questão para a psicanálise, pois considera que seu uso já se dá como uma tentativa de lidar com o mal-estar.

Recorrendo a alguns comentadores da obra de Lacan, que investigam o tema da droga, Tótoli e Marcos (2017) ressaltam que Lacan não fala em toxicômano, mas em intoxicação, toxicomania, droga, experiência vivida por alucinógenos. Ele ainda afirma que o toxicômano estaria no interior desses termos e que a psicanálise precisaria inventá-lo, torná-lo apto para que se abrisse à prática psicanalítica. 

Tótoli e Marcos (2017), na segunda parte do artigo, intitulada O sujeito toxicômano e o Outro, nos apresentam os textos de Lacan nos quais este faz referência à toxicomania. Primeiro, Os complexos familiares, de 1938, em que Lacan afirma que se trataria de uma saída oral como efeito de um traumatismo psíquico, na qual o sujeito tende a reconstruir a harmonia perdida, visando à assimilação perfeita do ser, enfatizando que seria uma resposta frente à experiência de separação que o desmame inscreve na existência. Em Formulações da causalidade psíquica, de 1946, a separação continua em primeiro plano, e Lacan toma a intoxicação como uma tentativa ilusória de resolver a discordância entre o eu e o ser. No texto Subversão do sujeito e a dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960, ele cita a experiência do alucinógeno no lugar do entusiasmo platônico e do samadhi budista. 

Para Freda (1997/2005), estas três primeiras referências constituem um conjunto muito preciso, definem um tipo de resposta do sujeito perante o reconhecimento da existência do inconsciente. Sobre a toxicomania, cabe concluir que a intoxicação em todas as suas formas é uma resposta não sintomática que tenta anular a divisão do sujeito, a marca de uma posição subjetiva caracterizada por um “não querer saber nada do inconsciente”. É uma eleição entre a afânise e o significante, e o sujeito opta pela primeira. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 127)

Lacan, no artigo O lugar da psicanálise na medicina, de 1966, comenta que o discurso da ciência sobre a toxicomania gera uma nova definição desta e do estatuto de novos produtos deste mercado, como tranquilizantes e alucinógenos, ordenando novas práticas de cuidados médicos e de uso controlado de tóxicos, e isso se desdobra em direção ao gozo, ou seja, em um deslocamento do gozo. 

Em Le nom-dupes errent, de 1973-1974, Lacan faz a equivalência dos três nós borromeanos - real, simbólico, imaginário - e assinala a concepção do inconsciente centrada no império dos significantes, afirmando que, para que o sujeito siga esse caminho, não há necessidade do ‘haxixe’. Fazendo uma brincadeira, Lacan afirma, “a droga não é uma fonte de saber”.

É na última referência, no texto intitulado Clôture aux Journées d’Études des Cartels, de 1975, que Lacan trata da angústia ligada à descoberta do pequeno pipi e da relação com a castração. O que é apresentado aqui é a suposição de uma aproximação entre a droga e “o que permite romper o casamento do sujeito com o pequeno pipi” (Tótoli; Marcos, 2017 apud Lacan, 1975/1976, p. 128). Essa frase serviu como norteamento fundamental na abordagem da toxicomania pela psicanálise lacaniana. Passa-se então, não mais pensar na toxicomania, mas na questão da droga e de seus usos.

Uma vez estabelecida a questão sobre o caráter da toxicomania e o uso da droga para a psicanálise, Tótoli e Marcos (2017) passam a apresentar a relação do sujeito toxicômano e o Outro. Partem do Seminário 3 - As psicoses (1955-1956), no qual Lacan afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e esta é a sua condição, apontando, assim, a primazia do simbólico para o sujeito que tem seu esteio na metáfora do Nome-do-Pai. O sujeito então faz laço social através do discurso, da linguagem, de um agente, de um Outro - que é produto do endereçamento da palavra e tem a função de dar significados a esse sujeito. 

Lacan, no Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, de 1963-1964, define a posição do sujeito em relação ao Outro a partir das operações de alienação e separação. Do lado da alienação, temos o sujeito que se identifica com o Outro cheio de significantes. Essa alienação pode ter consequências no nível do gozo e da relação do toxicômano com a droga. Já a separação é a operação em que o sujeito se relaciona com o Outro por meio da falta, separando-se da cadeia significante e indo além do que está inscrito no Outro. A relação do toxicômano com o objeto-droga se impõe sobre a relação simbólica do sujeito e o Outro. Recalcati, J.A.Miller e Freud, trabalham essa questão sob as nomeações de ‘antiamor’ ou ‘ódio’, ódio pelo Outro. 

Na última parte do artigo, intitulada O gozo do toxicômano, Tótoli e Marcos (2017) trabalham a diferenciação da toxicomania nas estruturas clínicas: neurose e psicose. Ancoradas em Laurent, outro autor citado no artigo, as autoras afirmam que o uso da droga aponta para uma possibilidade de ruptura com o gozo fálico, sem que haja necessariamente a foraclusão do Nome-do-Pai. Continuam com Recalcati, que diferencia a dependência estrutural-simbólica - configurada pela relação do sujeito e o Outro - e a dependência patológica - do sujeito em relação ao objeto-substância -, na qual o sujeito tende a recusar a dependência estrutural pelo gozo imediato, não filtrado pelo Outro. O objeto-substância promete ao sujeito uma felicidade absoluta. Esse objeto se configura como uma substância real, que pode ser encontrado no mercado, ao contrário do objeto causa do desejo, que seria um resto da Coisa que incita o desejo.

Segundo Recalcati (2003), nas patologias de dependência, o Outro sexo é substituído pela assexualidade da substância e do gozo. O sujeito descarta o encontro com o Outro para, no consumo solitário do objeto, se assegurar da anulação da falta que o Outro introduz inevitavelmente. E aqui entra a questão do ódio e o antiamor: O ódio ocupa o lugar do amor de transferência e assume a forma extrema de recusa desta dependência constituinte do sujeito a respeito do Outro. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 132)

Trabalhando com a questão do gozo, Tótoli e Marcos (2017) introduzem a referência à pulsão de morte. A negação à mediação do Outro instaura um empuxo ao gozo, que pode se tornar destrutivo, configurando a pulsão de morte, que no mundo contemporâneo se manifesta como uma paixão, levando o sujeito a ser parasitado por um excesso de gozo. Para Recalcati, citado pelas autoras, essa é a condição de fundo da toxicomania, em que não existe alteridade, mas um sujeito mantido desesperadamente vivo e cheio de gozo, um gozo idêntico a si mesmo.

Tótoli e Marcos (2017), seguem desenvolvendo a questão do gozo e do falo, apresentando as formas de gozo propostas por Lacan e como elas se organizam. Ressaltam como a anulação da divisão do sujeito abre espaço para o gozo toxicômano, um gozo que é foracluído do lugar do Outro para retornar no real. 

... o Outro extrai algo do sujeito ao mesmo tempo em que lhe doa algo. Rouba o gozo e lhe doa um duplo consolo, o consolo do símbolo na condição de eliminar a Coisa do Gozo pela ação do Outro e o consolo do desejo, que só existe devido à falta, ao vazio. Nas patologias da dependência, falham tanto o consolo do símbolo como o do desejo. No lugar da metáfora simbólica, se apresenta a Coisa como tal, e no lugar da metonímia do desejo, se impõe o gozo sempre igual, da mesma Coisa. (Tótoli; Marcos, 2017, p. 134)

Ancoradas em Lacan, Tótoli e Marcos (2017) apontam que em função da angústia causada pela castração e pela falta, a droga funcionaria como aquela que rompe o casamento do sujeito com o falo. Por isso, o recurso à droga torna difícil o diagnóstico diferencial da toxicomania para a psicanalise, pois é um recurso que camufla a relação do sujeito com o falo. Portanto, é a função do objeto droga que se difere em cada estrutura, pois o gozo extraído do objeto não é o mesmo. Na neurose, a droga pode promover uma ruptura com o gozo fálico, sem que haja foraclusão do Nome-do-Pai, permitindo que o sujeito experimente um gozo cínico, que rechaça o Outro. Já na psicose, não há a ruptura com o gozo fálico, pois já existe a foraclusão. 

Trabalhando com os textos de Santiago, Tótoli e Marcos (2017) indicam que o real do corpo se situa em torno do gozo fálico. O toxicômano esbarra nesse casamento que todo sujeito deve contrair entre o gozo fálico e o seu corpo. Haveria então uma infidelidade do toxicômano em face a essa acomodação do gozo que o incomoda. Isso fica em evidência nos casos de toxicomania na neurose. Porém o sujeito psicótico pode valer-se da droga para vários usos, por exemplo, uma identificação ao significante toxicômano, podendo localizar o gozo no campo do Outro; além disso, pode promover o desencadeamento, ou ainda um apaziguamento de um gozo sem limites, uma suplência psicótica com o intento de regular o gozo. 

Não podendo utilizar a tese da ruptura do gozo fálico para o uso da droga em casos de psicose, Tótoli e Marcos (2017) recorrem à teoria dos nós trabalhada por Lacan. Nessa articulação, o registro do real passa a ter uma equivalência em relação ao simbólico e ao imaginário, deixando de ser um produto da operação simbólica, como já esteve contemplado anteriormente no ensino de Lacan. As autoras explicam brevemente essa formulação teórica para introduzir o conceito de sinthoma e como Lacan trabalha no caso do escritor James Joyce. Com isso, apresentam a possibilidade da droga, na psicose, ser um sinthoma que oferece ao sujeito psicótico várias soluções de diferentes enodamentos. A droga pode operar como um substituto da função do gozo fálico, ou seja, um remendo imaginário que possibilita ao sujeito uma construção significante. Pode ainda tentar suprir o Nome-do-Pai faltante, amarrando novamente os três registros soltos em uma psicose desencadeada. Pode ser também um objeto que possibilita a entrada no laço social, proporcionando uma suplência ou uma estabilização. A conclusão é que cada sujeito faz uso da droga de modo muito particular, independentemente da estrutura.

Com Scofield (2017), são apresentados três casos clínicos e seus encaminhamentos. O autor entende que o uso da droga viria como uma tentativa, no ser falante, de tratar seus sofrimentos ocasionados numa estrutura psicótica. 

A localização do gozo do corpo, sempre excessivo à significação, sem a prótese fálica que o significaria fantasmaticamente, não foi suficiente para João. Ele precisou de um recurso à substância para que este gozo fosse minimizado, permitindo-lhe, a partir da maconha, retomar minimamente uma ordenação na junção mais íntima de seus sentimentos de vida. Para José, transar com a cocaína o protege de se haver com um gozo do Outro sexo, sem precisar responder com a referência fálica da qual é desprovido. No caso de Mário, a identificação a um significante que nomeie para ele uma falta, lá onde ele se nomearia, em ato, enquanto objeto, tem função terapêutica para erguer novamente o corpo do qual ele não se apropria enquanto merda. (Scofield, 2017, p.54)

Para encerrar essa resenha, Scofield (2017) faz uma analogia com o que Lacan diz sobre a própria psicanálise e como ele entende a questão do tratamento clínico da toxicomania.

Lacan ao referir-se à psicanálise... disse que “cada um sabe que a análise tem bons efeitos, que só duram um certo tempo. Isso não impede que seja uma trégua, e que é melhor do que não fazer nada”. As toxicomanias podem ser assim vistas como uma trégua. É exatamente a partir deste ponto que os analistas, orientados por seus desejos e pela psicanálise pura, têm a responsabilidade de sustentar a transferência com os falasseres toxicômanos e psicóticos em um tratamento que permita produzir, para além da droga, um enodamento singular entre o gozo do Um, sempre desmedido, e o Outro, sempre insuficiente. (Scofield, 2017, p.54)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TÓTOLI, F. C. e MARCOS, C.M. Psicanálise e Toxicomania: o gozo da droga e a ruptura com o gozo fálico. Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, v. 39, n. 36, p. 125-140, jan./jun. 2017. Disponível em https://cprj.com.br/cadernos-de-psicanalise-n-36/

SCOFIELD, L. Toxicomanias aplicadas à psicose. Pharmakon Digital, Toxicomanias e Psicoses, v. 3, p. 52-54, nov. 2017. Disponível em https://pharmakondigital.com/category/2017-novembro-volume3/