segunda-feira, 8 de junho de 2026

KIDS


Nesta resenha comentarei o artigo A drogadicção na adolescência contemporânea, de Bianca Bergamo Savietto e Marta Resende Cardoso, publicado na revista Psicologia em Estudo, em 2009. Como o objetivo aqui é tratar as especificidades das adicções na infância e na adolescência, acrescento mais uma referência, o filme Kids, de Larry Clark, de 1995, considerado uma obra que explicita um retrato da juventude que segue se intensificando com o passar das décadas. Como suporte de pesquisa em relação ao filme, utilizo uma crítica de jornal, A vida como ela é, do psicanalista Contardo Caligaris, publicada na Folha de São Paulo, em 1995, e uma publicação de 2017, da revista Educação&Realidade, com a tradução do artigo O filme Kids e a política de demonização da juventude, de Henry Giroux, pedagogo norte-americano, de 1996.

Sexo, drogas, abandono escolar, amizades, normas sociais, família, ocupação do espaço urbano, todas essas questões são próprias da fase de transição entre infância e vida adulta. O filme Kids (1995), de Larry Clark, acompanha um grupo de jovens durante o período de 24 horas na cidade de Nova York. A banalização do sexo e as questões com o HIV, a ausência de adultos ocupando funções na vida desses jovens, o uso indiscriminado de álcool e drogas, a apatia, o vazio, a agressividade, tudo isso se apresenta como cine-documental e deixa ao espectador a interpretação do que pode significar. É uma crítica aos jovens ou à sociedade na qual eles se encontram? É uma crítica? A forma que o diretor escolhe para apresentar aquelas imagens sugere que ele se exime de tomar um partido, apenas mostra um recorte de algo que está ali, nas ruas da cidade, e deve ser visto.

O pedagogo Henry Giroux é exemplar em descrever em que lugar colocamos aqueles sujeitos que, pela sua faixa etária, se encontram em uma fase chamada adolescência. Ele critica a imagem que se constrói dos jovens, e denuncia que essa imagem os retira, pouco a pouco da posição de cidadãos no espaço político.

Louvados como um símbolo de esperança no futuro e, ao mesmo tempo, execrados como uma ameaça à ordem social existente, os jovens têm se tornado objetos de ambivalência, presos entre discursos contraditórios e espaços de transição. Mesmo afastados para as margens do poder político na sociedade, os/as jovens se tomaram, não obstante, um foco central da fascinação, do desejo e da autoridade dos adultos. Vivendo, cada vez mais, numa situação em que lhes são negadas oportunidades de auto-definição e de interação política, os/as jovens são transfigurados/as por discursos e práticas que subordinam e contêm a linguagem da liberdade individual, do poder social e da agência crítica. Símbolos de uma democracia em declínio, são identificados/as com uma gama de significantes que negam completamente seu papel de cidadãos e cidadãs ativos/as. Associados/as com a rebelião própria da fase de crescimento, eles/as se tornam a metáfora de uma resistência trivializada. Ao mesmo tempo, a juventude é vista como um local de mercantilização e como um mercado lucrativo. (GIROUX, [1996] 2017, p.124)



Com o artigo A drogadicção na adolescência contemporânea (2009), Savietto e Cardoso analisam a questão das toxicomanias na adolescência, particularizando o aspecto do desamparo. Analisam os novos modelos de família em que esses jovens são criados, e ainda direcionam uma atenção especial para a problemática da chamada transmissão psíquica. Iniciam o artigo com a pergunta que parece espelhar a dúvida dos adultos na atualidade: por que, entre esses adolescentes de hoje, o uso de drogas tornou-se tão intenso? Elas afirmam que as respostas são múltiplas e complexas, somando-se a isso a mudança do paradigma social em que há o privilégio da ação em detrimento dos pensamentos, da satisfação imediata ao invés da espera e o uso do prazer na busca da suspensão da dor. Com isso, propõem a pergunta fundamental do artigo: o aumento do uso de drogas entre jovens seria uma resposta defensiva diante da situação de desamparo, em vista de uma estrutura familiar enfraquecida e fragilizada, marcada por falhas e excessos de várias ordens?

Apoiadas na noção de desamparo originário do psicanalista Mário Sérgio da Costa Pereira, Savietto e Cardoso (2009) apontam que o desamparo ultrapassa a vertente biológica e a insuficiência psicomotora do bebê. Ao se basearem na noção psicanalítica de divisão psíquica do sujeito, entendem que o desamparo estaria relacionado às possibilidades e limites da representação, da simbolização da força pulsional. O desamparo, então, vincula-se à ideia de insuficiência, inicialmente a psicomotora do bebê, mas sobretudo, à insuficiência do aparelho psíquico em dar conta do excesso de excitação pulsional. É um protótipo de toda a situação traumática: “se trata de um estado no qual o sujeito se vê inundado por um excesso de excitações, o qual ultrapassa a sua capacidade de ligação.” (Freud, 1926, apud Savietto; Cardoso, 2009, p. 12). 

Savietto e Cardoso (2009) apresentam a ideia do desamparo no seio da família moderna, utilizando a metáfora de fluidez, proposta por Zygmunt Bauman, como referência à sociedade ocidental contemporânea. 

Na modernidade, segundo o autor, teve lugar um processo de liquefação, de derretimento dos sólidos já estabelecidos, no sentido de um rompimento com o passado e a tradição. Bauman ressalta que este derretimento não deveria eliminar os sólidos de uma vez por todas, e sim, abrir espaço para “novos e aperfeiçoados sólidos” (Bauman, 2001, p. 9), dignos de confiança, que pudessem tornar o mundo previsível e administrável. Não obstante, a substituição dos antigos sólidos por novos que poderiam vir a constituir uma “solidez duradoura” (Bauman, 2001, p. 10) jamais se concretizou. Nesse processo de derretimento, a única ordem que parece ter se mantido foi a econômica. Pode-se dizer que instituições tradicionais como o Estado e a família, assim como padrões e configurações institucionalizados, “liquefizeram-se”, adquirindo um caráter fluido, instável, volúvel, com forte tendência à mutabilidade. (Savietto; Cardoso, 2009, p. 13)

Tanto na esfera pública, quanto na vida privada, o sujeito contemporâneo depara-se com a ausência de autoridades rígidas, de regras e de referenciais estáveis. Encontra-se imerso num contexto em que nada mais está dado, e no qual ele é convocado a construir suas próprias referências e elaborar as normas que regulam a sua existência. O psicanalista Sérvulo A. Figueira, que serve de suporte para Savietto e Cardoso (2009), afirma que o igualitarismo é a nova ideologia reguladora das relações familiares. “A tradicional família hierárquica – na qual os indivíduos são definidos a partir de sua posição, sexo e idade, com numerosas ideias sobre o “certo” e o “errado” – vai ceder espaço para a nova “família igualitária”. (Savietto; Cardoso, 2009, p. 13). 

A aposta de investigar mais a fundo as transformações familiares é particularmente interessante, pois é nesse ambiente que os sujeitos encontram os referenciais para sua constituição. Além disso, no filme Kids (1995), um dos pontos de destaque das análises é a ausência de adultos nas cenas, e quando aparecem, geralmente não assumem uma posição de autoridade ou segurança, pelo contrário, são enxotados pelos jovens. Além disso, como afirma o psicanalista Contardo Caligaris (1995), os jovens se identificam às novas figuras parentais e são produto dessas identificações.

Uma pergunta surda acompanha o espectador de "Kids": cadê os adultos? Sua presença no filme é irrisória: o passeante surrado, um mendigo aleijado, loucos sem casa perdidos na cidade, assistentes sanitárias anônimas, uma mãe fumando em cima de seu bebê, vidrada na televisão, um sapato paterno onde roubar dinheiro... A fala dos adultos é ausente. (...) Os kids lêem o desejo parental além do que os pais imaginam. E hoje, nesta leitura, eles dispõem como nunca de indícios explícitos. A simples adesão de seus pais aos valores sociais de massa destina os kids ao ideal de vida que os orienta (ou desorienta) no filme de Larry Clark. (Caligaris, 1995, p.1)


Savietto e Cardoso (2009), acrescentam o pensamento do sociólogo francês Alain Ehremberg, que se debruça sobre as implicações do contexto cultural contemporâneo na subjetividade. O indivíduo não está mais sendo conduzido por uma ordem exterior, em conformidade com a lei, mas sendo obrigado a julgar por si mesmo, contando apenas com seus recursos internos. Isso resulta em uma ‘doença da responsabilidade’. A sensação que prevalece é a da insuficiência, que novamente aparece aqui. 

Avançando na pesquisa sobre a família contemporânea, Savietto e Cardoso (2009) recorrem a outro sociólogo francês, Remi Lenoir, que trabalha em torno da genealogia da moral familiar. Ele avalia mais um dado nessas transformações e propõe que o ingresso das mulheres no mercado de trabalho teria alterado taxas de casamento e divórcio, adiamento do nascimento de filhos, entre outros aspectos, e que isso teria promovido uma espécie de renovação ética, reforma moral. Ainda que essa abordagem de Lenoir possa ser polêmica, e questionável do ponto de vista feminista, tais alterações são visíveis na sociedade e podem coincidir com as mudanças da posição das mulheres nas suas atribuições socias. Os movimentos feministas promoveram uma alteração significativa em relação à hierarquia e descentralização do poder doméstico, inclusive expondo insistentemente essa nova condição. 

Savietto e Cardoso (2009) incluem mais um ponto interessante que é sobre os impasses de uma transmissão psíquica. Essa não é uma questão simples e o suporte de pesquisa para as autoras vem do psicólogo francês René Kaës, que retorna a Freud. Primeiro, a Totem e Tabu, em que temos a herança arcaica representada pela culpa e interditos transmitidos como efeito do assassinato do pai da horda privema. Depois, a Sobre o narcisismo, uma introdução, em que o sujeito se apoia no narcisismo da geração que o precede, na transmissão de todos os desejos e fantasias não satisfeitas por seus pais. A partir disso, o sujeito se subjetiviza e se coloca no sentido do seu próprio desejo, assumindo seu lugar. Sendo assim, o sujeito do inconsciente é o sujeito da herança. 

Na clínica atual – clínica marcada de maneira significativa pelos estados- limites – a impossibilidade de apropriação (e de transformação, portanto) da herança no processo de transmissão, revela a existência de uma dimensão, de uma espécie de identificação “em negativo” neste processo. (...) A problemática da drogadicção na adolescência contemporânea também aponta - e de maneira particular - para uma dimensão “em negativo” no processo de transmissão, ou seja, para a impossibilidade de esses sujeitos integrarem, em seus psiquismos, a totalidade da herança recebida de seus pais. A presença de elementos “irrepresentáveis” no interior do sujeito produz um efeito, além de ruidoso, altamente “intoxicante”, do qual ele pode, paradoxalmente, buscar se defender por meio da intoxicação pela droga. (...) Poderíamos considerar a drogadicção como uma experiência de construção de um escudo, de contenção à excitação desestruturante. (Savietto: Cardoso, 2009, p. 16)

Trabalhando com a hipótese da problemática do atravessamento geracional de um vivido traumático no incremento da drogadicção na adolescência, Savietto e Cardoso (2009) recorrem a mais dois autores indiscutíveis nas pesquisas sobre a “negatividade” na transmissão, Nicolas Abraham e Maria Torok, que abordam a impossibilidade do luto de um objeto significativo quando aliado a conteúdos indizíveis, que tendem a permanecer encriptados no psiquismo. Abraham e Torok procuram traçar uma distinção essencial entre introjeção e incorporação, dentro do trabalho psíquico. O processo de introjeção indicaria a passagem de objetos, de modo fantasístico, de fora para dentro, uma possibilidade de assimilação do objeto, de integração, contribuindo para um enriquecimento do eu. Já a incorporação, representaria um processo no qual a mediação fantasística falha. Portanto, tomaria o objeto de forma direta, sem transformação – tratar-se-ia de ser o objeto. É uma dificuldade no nível da identificação. A identificação pressupõe uma perda do objeto, um trabalho de luto que engendra a interiorização e a assimilação do objeto, de maneira integrada ao psiquismo. Sem isso, e sem a intermediação da fantasia, o objeto assumirá o estatuto de estranho no interior do aparelho psíquico, que não consegue traduzi-lo, simbolizá-lo, incluí-lo em sua esfera representacional. É um conteúdo herdado, mas que não é possível se apropriar.

Por fim, Savietto e Cardoso (2009), chegam na questão da drogadicção e o intraduzível. Propõem uma compreensão das atuações numa perspectiva de tentativa de domínio do excesso pulsional, numa transgressão, menos no sentido da lei, ou da castração, mas no sentido de uma invasão pulsional, um transbordamento no espaço egóico. Sugerem que a impossibilidade de representação desse excesso faz-se sentir, paradoxalmente, como um vazio.

O psiquismo, submetido à pressão dessa herança “maldita”, da insistência, desde o interior, do traumático, de um excesso pulsional não dominável – estado de passividade, de desamparo – pode tentar reverter tal situação por meio de uma atuação, geralmente, de caráter transgressivo (no sentido fundamental de um atravessamento). O corpo tende a ser convocado – registro do ato – exatamente quando o psiquismo não consegue dar conta, não é capaz de ligar o excesso pulsional. (Savietto; Cardoso, 2009, p.17)


Como conclusão, Savietto e Cardoso (2009) utilizam as considerações do psicanalista Hugo Mayer, que entende que a droga viria ocupar o lugar dos pais faltantes: seja a mãe, em sua função de sustentação, para que o sujeito não caia num vazio abismal; seja o pai, como organizador central de uma cultura que concede o lugar de pertencimento e, ao mesmo tempo, de confronto. As autoras afirmam que uma das possiblidades do ego diante da violência psíquica é a tentativa de reverter essa violência também de forma violenta, reverter a passividade em atividade, em ato. A clínica contemporânea, portanto, apontaria então as fronteiras da representatividade de um conflito no espaço psíquico.

O artigo de Savietto e Cardoso (2009) apresenta a questão proposta de maneira bem fundamentada e com referências de pesquisa importantes e relevantes. No entanto, há certas generalizações e moralismo por parte das autoras. A inclusão do filme Kids (1995), com as análises do ponto de vista da cultura, colabora para ampliar o olhar sobre a questão. Vale lembrar que há o particular de como cada sujeito se coloca singularmente na situação e como sai dela. Além disso, diante de uma mudança geracional importante e definitiva, há passos de construção em coletivo que devem acontecer, que só poderemos avaliar posteriormente, pois a chamada adolescência é tão jovem no processo civilizatório quanto os próprios adolescentes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALIGARIS, C. A vida como ela é. Caderno Mais! Folha de São Paulo. São Paulo, 01/10/1995. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/3.html

GIROUX, H. O filme Kids e a política de demonização da juventude [1996]. Educação&Realidade, v. 21, n. 1, p.123-136, mar/2017. Disponível em https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71648

MAUREY, A. Kids (1995): Algo de novo, nada de velho na juventude. Prosas e Contras. Rio de Janeiro,14/01/21. Disponível em https://prosasecontras.com.br/kids-1995-algo-de-novo-nada-de-velho-na-juventude/

SAVIETTO, B.B. e CARDOSO, M.R. A drogadicção na adolescência contemporânea. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 11-19, jan./mar. 2009. Disponível em https://www.scielo.br/j/pe/a/pJJsxfskQqf4gFmxbFCsmfC/?lang=pt


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