quarta-feira, 3 de junho de 2015

O que resta, o que marca

Acabo de voltar de férias, uma viagem que primeiro foi adiada, depois adaptade e certamente, mesmo muito sonhada, esteve longe de se cumprir como tinha sido idealizada. Mas valeu e muito.
As imagens que ficam e que se dispersam foram aquelas vistas, vividas, sentidas. Os retratos concebidos com pensamentos e sentimentos. Os registros fotográficos, eles impedem o olhar real e esses podemos conseguir de outras fontes. Cada minuto num lugar, numa situação, valem pela realidade do corpo presente, aceso, ligado. 
A escolha do itinerário foi para contemplar vontades, desejos e deixaram no seu resumo uma metáfora de amor, o que se leva de cada encontro amoroso e o que se espera mais ainda daquilo que já foi?
Pois é, pensei assim...

Madri vale um namoro

San Sebastian e Bilbao valem um caso eterno, pode até ser platônico


Bordeaux quero um segundo encontro

O interior da frança quero ir de leve, um pouco de cada vez, explorando, sem compromisso.. Rocamadour, Montignac, Cahors, Lascaux, Périgord, e muitos outros vilarejos silenciosos..







Toulouse já valeu pelo que foi

Barcelona é a pegação, ainda tem noites e mais noites pra curtir, drinks e mais drinks para tomar...


quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tchau, meu amor...

"tchau, meu amor..."

Toda a intensidade dos momentos que antecediam a despedida sumiam na suavidade das palavras que deveriam encerrar a conversa. Soava como largar as mãos, distanciar a visão, mas reacendia o desejo de permanecer. Na tentativa de romper, o beijo parecia a forma mais garantida, como se colasse mais e aí soltasse de vez.  Tenta uma, tenta duas, na terceira vez a aceitação, acabou.
Mas o coração palpitava, a cabeça devaneava, o tempo não passava. 
Tinha um cara que falava sobre não desistir do seu desejo, quem iria ceder primeiro. Claro, ele, e mais uma vez o som mecânico dizia, acorda e vem pra vida que vai começar tudo de novo.
Quem tem coragem de dizer que ama, com a plenitude que essa expressão tem dento da boca, sabe que amar leva ao sofrer, mas que vale a pena sempre. Não há nada melhor pra fazer na vida a não ser amar, e dizer sempre: "tchau, meu amor.."

domingo, 5 de abril de 2015

A VOZ


Estava fadada àquele destino. Se escondia atrás de véus, de trapos, tudo em vão.
O som da voz denunciava sua essência, a alma que a habitava.
Nunca soube direito se escolhia as imagens que vestia para esconder ou revelar (rebelar) melhor a face verdadeira do seu desejo. Sofria quando era tomada por essa face, mas era inevitável, pois não tinha controle sobre a musicalidade, o timbre, a singularidade daquilo que saía da sua boca. O que entra se controla, o que sai, não se sabe.
Os anos passaram, ela começou a brincar mais com o que tinha em volta, só então se deu conta que a revelação morava justamente onde ela não tinha acesso e nem controle. Aceitou, mas será que poderia se apropriar disso? Talvez se conformar com ocorrência imprecisa e curtir a brincadeira que isso trazia seria a melhor forma de tomar para si o que era verdadeiramente seu. 
Mas se não sabia de onde vinha, apesar de sair pela boca, e também não tinha controle, será que pertencia a ela mesmo? Se era no olhar do outro, no desejo despertado no outro, não pelo que este via, mas pelo que ouvia e se manifestava nele, era dela mesmo ou do outro?
 Mélange essa era a palavra mais precisa para dizer disso. Com significado de mistura e sonoridade de melado, a palavra desvelava aquilo que ela talvez provocasse quando falava. Uma mistura entre desejo de um e desejo de outro, provocando demandas indizíveis em busca de prazeres nem sempre possíveis.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O BEIJO


Hoje faltam as bocas que deveriam ter sido beijadas, ainda que para serem descartadas. Quantas promessa, quanta espera, tudo em vão. O tempo estagnado aguardando atualização, ansiava ainda mais aqueles lábios que nem aparecem mais como perdição. Os olhos se grudavam, se experimentavam, se invadiam na tentativa vã de disfarçar da moral o desejo. Tolice! O atrevido ganha o que o polido adia. Por ali o tempo perdura.

A PROFECIA



A profecia dizia: ora dupla, ora androginia.Mas fêmea como se via, buscava masculamente a parceria.Hermafrodita não se sabia, mesmo diante das contrariedades que vivia.Reclusa durante o dia, invocara Sibila de Cumas, musa apolínea, Sussurrava desejos, rabiscava palavras, mas nem assim se via.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Elisa



(foto de Paolo Roversi para Vogue Itália)

Elisa, que belo nome para uma mulher.
Sonoro, discreto, marcante.
Uma mistura das letras e sons do clássico Alice. Uma revolução.
Na pronúncia do nome os lábios pouco se abrem, mas a língua dança entre o céu da boca e o interior dos dentes.
Quem é aquela que atende por esse nome?
O que desperta em quem chama e o que ressoa em quem atende?
Elisa, disfarça estereótipos, se mistura na multidão, mas carrega o saber do seu alvo, da direção pra onde deve olhar. 
Elisa, luz do dia, brisa da manhã, tranquilidade do silêncio.

domingo, 1 de março de 2015

DOG-BOY

Eu conheci um cãozinho, Dog-boy.
Ele chamava pouca atenção: tinha porte médio, era branco com algumas manchas de cores comuns. Nada demais. Apesar dessa aparência indistinta, ele era um cão muito ativo, não parava, sempre pra lá e pra cá circulando, chafurdando, farejando.
O mais curioso é que ele parecia ser muito interessado no mundo. Atento, olhando tudo e todos com muita atenção. Investigativo, chegava perto e parecia querer muito interagir. Ele rondava, se aproximava, mas perdia o interesse e seguia em outra direção.
Um dia resolvi prestar atenção ao que ele fazia e por que se desinteressava. E notei que ele tinha um limite, ele estava preso. Pensei: mas que coisa, como pode um cão sem coleira estar preso?
Observei o espaço que ele ocupava e percebi que não aparecia nenhum dono, nem voz de dono. Ele estaria sozinho? E por que permanecia ali, brincando apenas naquele espaço restrito? O que não havia me dado conta é que tinha uma fronteira entre ele e o mundo. Ele estava num quintal, na frente da casa, mas entre ele e a rua tinha um belo portão. Como o portão era baixo, nem imaginei que isso o limitaria. E se ele quisesse, o portão não seria problema para ele sair e explorar aquela imensidão que passava pelos seus olhos, pelo seu faro. Fato é que Dog-boy não fugia. Ficava ali, serelepe, animado, mas obediente ao seu amo, delimitado pelo quadro que lhe tinha sido designado.
Dog-boy era um cão safado, porque não tinha carisma, mas se mostrava para quem dali se aproximasse. Ganhava pouco tempo de atenção e guardava aquilo como um trofeu da sua aventura. O que faria Dog-boy viver alguma aventura um dia? Como será que ele atravessaria aquele portão? Daí fui eu que fiquei presa naquela teia de fantasias e suposições, ligava naquele cãozinho, na rua, separada por aquele portão. 
Um latido vindo de outro lado me acordou. Percebi que Dog-boy tava todo excitado com o cachorro saltitante que passeava com seu dono e isso me deu a pista pra entender quem era Dog-boy, o cão que não late, não morde, só fareja.
(Simone de Paula - 31/1/2015)