Na semana passada, aconteceu a premiação do concurso 'doodle 4 google'. Meu marido Leandro era um dos jurados da competição entre crianças e adolescentes, que fizeram desenhos para as vinhetas do site. Outro jurado era o Ziraldo e num papo entre eles, Ziraldo conta que uma criança o tinha visto datilografando (que palavra antiga) e teria comentado: "nossa, que legal essa máquina, ela digita e imprime ao mesmo tempo". Ora, a criança via naquela máquina de escrever um aparelho bem moderno.
Mas essa breve narrativa me fez pensar nessa relação computador / máquina de escrever e numa possível analogia com a vida que pretendemos viver hoje.
Na máquina de escrever, sim você escreve e imprime ao mesmo tempo, mas o que se imprime além daquilo que se pretende dizer é o erro. O erro aparece na máquina de escrever, objeto antigo que hoje é pouco usado.
Nos computadores, é possível corrigir o erro, ocultá-lo de quem lê o impresso, mas também se oculta o erro de si mesmo. E aí que vem algo mais delicado, quando não percebemos o erro, quando ele é uma pequena e breve pedrinha no percurso, ele deixa de ter a importância que tinha, ou seja, indicar, ou imprimir, humanidade. Quem não erra é perfeito e é justamente isso que vemos diaramente, as pessoas buscando a perfeição para depois viver. É o momento perfeito, o corpo perfeito, o carro perfeito, a vida perfeita, tentando a todo custo afastar o humano do ser.
Interessante essa experiência vivida pela criança com o Ziraldo, pois na ambição de conseguir uma máquina de escrever moderna, talvez ela possa reencontrar a possibilidade de errar, coisa que hoje nem criança mais pode fazer.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
E você, mergulha como?
Já reparou como muitas pessoas, focadas no seu narcisismo, perdem a dimensão da experiência?
Tenho pensado e falado nisso há algum tempo, pois ouço pessoas falando de situações rotineiras e banais, mesmo quando o outro a quem se referem já não faz mais parte daquele espaço onde antes era tela projetiva.
Esse tipo de funcionamento geralmente vem atrelado a alguma paixão, mas paixão por si mesmo, como bem indica o termo 'narcisismo'.
A pessoa, apaixonada pela sua fantasia, vive aquele dilema sem notar que tudo a sua volta mudou.
Falando em Narciso, ele nos serve bem aqui, pois diz a lenda que o rapaz se apaixona pela própria imagem refletida na lagoa. Esse mito traz bem declarado esse amor pela fantasia, pela própria imagem refletida naquela tela, na qual a pessoa imagina ter alguém que a olha na mais íntima e verdadeira essência.
Mas, falo aqui da experiência, e essa precisa de realidade para existir, por mais que a realidade seja subjetiva.
Voltando aos básicos, se tomarmos a história de Narciso, lembramos que, de tanto ele olhar e perguntar para aquela linda imagem quem ela era, ele se perde na própria angústia de não obter respostas e mergulha de cabeça naquela lagoa, morrendo afogado.
Voltando um pouquinho, Narciso está lá,olhando para a própria imagem, acreditando ser um outro. Mas há um outro, o Sol que ilumina aquele ambiente possibilitando a imagem refletida. Outro que está atrás, aquele que oferece a Narciso uma paixão, uma visão, mas que nunca é olhado pelo pobre rapaz apaixonado.
Ora, dando uma certa mobilidade à história, Narciso poderia ter se apegado menos às perguntas rotineiras que ele insistia em fazer e pensar no que afinal é aquele elemento no qual a imagem estava refletida.
A água distorce, a água obscurece e dá opacidade. Desconfiar daquele ambiente, daquela bela verdade, viver o material da experiência possibilitaria a Narciso uma alternativa, mais comedido, mais reflexivo, mais mental, talvez ele teria sobrevivido.
Mas aí, seria outro história, pois se Narciso mudasse de posição, não morreria no encontro ao outro. Para ver o outro, para viver a experiência em sua dimensão maior, é preciso que o narcisismo morra.
Voltando ao mergulho... você pode mergulhar de cabeça, de pé, entrar devagar na água, prender a respiração com a mão, ou não. Enfim há diversos modos de mergulhar que indicam nossa entrega à paixão. Será?
Eu mergulho de pé, mas prefiro entrar devagar na água e só depois de envolvida por aquele ambiente, ir de cabeça.
Nesse calor, ficou com água na boca?
E você, mergulha como?
Tenho pensado e falado nisso há algum tempo, pois ouço pessoas falando de situações rotineiras e banais, mesmo quando o outro a quem se referem já não faz mais parte daquele espaço onde antes era tela projetiva.
Esse tipo de funcionamento geralmente vem atrelado a alguma paixão, mas paixão por si mesmo, como bem indica o termo 'narcisismo'.
A pessoa, apaixonada pela sua fantasia, vive aquele dilema sem notar que tudo a sua volta mudou.
Falando em Narciso, ele nos serve bem aqui, pois diz a lenda que o rapaz se apaixona pela própria imagem refletida na lagoa. Esse mito traz bem declarado esse amor pela fantasia, pela própria imagem refletida naquela tela, na qual a pessoa imagina ter alguém que a olha na mais íntima e verdadeira essência.
Mas, falo aqui da experiência, e essa precisa de realidade para existir, por mais que a realidade seja subjetiva.
Voltando aos básicos, se tomarmos a história de Narciso, lembramos que, de tanto ele olhar e perguntar para aquela linda imagem quem ela era, ele se perde na própria angústia de não obter respostas e mergulha de cabeça naquela lagoa, morrendo afogado.
Voltando um pouquinho, Narciso está lá,olhando para a própria imagem, acreditando ser um outro. Mas há um outro, o Sol que ilumina aquele ambiente possibilitando a imagem refletida. Outro que está atrás, aquele que oferece a Narciso uma paixão, uma visão, mas que nunca é olhado pelo pobre rapaz apaixonado.
Ora, dando uma certa mobilidade à história, Narciso poderia ter se apegado menos às perguntas rotineiras que ele insistia em fazer e pensar no que afinal é aquele elemento no qual a imagem estava refletida.
A água distorce, a água obscurece e dá opacidade. Desconfiar daquele ambiente, daquela bela verdade, viver o material da experiência possibilitaria a Narciso uma alternativa, mais comedido, mais reflexivo, mais mental, talvez ele teria sobrevivido.
Mas aí, seria outro história, pois se Narciso mudasse de posição, não morreria no encontro ao outro. Para ver o outro, para viver a experiência em sua dimensão maior, é preciso que o narcisismo morra.
Voltando ao mergulho... você pode mergulhar de cabeça, de pé, entrar devagar na água, prender a respiração com a mão, ou não. Enfim há diversos modos de mergulhar que indicam nossa entrega à paixão. Será?
Eu mergulho de pé, mas prefiro entrar devagar na água e só depois de envolvida por aquele ambiente, ir de cabeça.
Nesse calor, ficou com água na boca?
E você, mergulha como?
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Mito e Cinema Depois Daquele Encontro - e nunca mais fui o mesmo
Quem conhece, sabe que os cursos da Ana são experiências únicas, especiais, inspiradoras e imperdíveis.
Curso com Ana Figueiredo
Mito e Cinema Depois Daquele Encontro - e nunca mais fui o mesmo
de 16 de outubro a 12 de dezembro de 2010 - sábados das 10 às 13h30
no Espaço Unibanco de Cinema - Anexo da Rua Augusta, 1470 - SP
O mundo será sempre muito maior que nossa vã imaginação. Não há a possibilidade de cinema sem a qualidade do maravilhamento! Walter Salles Jr.
Este é um curso de Mito:
Os mitos me falam como reagir diante de certas crises de decepção e fracasso, diante do sucesso e do maravilhamento. Os mitos dizem onde estou. Joseph Campbell.
Este é um curso de Mito e Cinema:
O conflito é interior, da ordem do indizível; alguém sai de um ponto, atravessa uma geografia, encontra algo ou alguém que vai transformar o personagem - e o personagem da largada não é mais o mesmo depois da jornada. Walter Salles Jr.
A jornada - sempre uma partida, um preenchimento, um retorno - e a história da transformação da consciência. Joseph Campbell
Serão exibidos ou comentados trechos de filmes cujas imagens e narrativas e pequenos detalhes evoquem nosso tema central:
Mostrar fragmentos do todo; priorizar o detalhe, o sutil, a diferença. Assistindo ao todo se vê o fio da história, mas perde-se o detalhe. Walter Salles Jr.
Este é um curso de Mito e Cinema e o tema do Encontro - e depois, nunca mais se é o mesmo:
Se tivesse morrido antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar minha hora.
Quando já não se espera nada, encontrei o que faltava para passar a ter tudo. José Saramago
Como ser capaz de lidar e conter cada encontro?
Quando se sonha com um prazer extraordinário e a vida proporciona a oportunidade de poder encontrá-lo, deve-se estar disponível e também preparado para pagar um preço extraordinário a fim de obtê-lo e torná-lo real. Pedro Almodóvar
Mito e Cinema Depois Daquele Encontro faz uma homenagem ao cineasta Walter Salles Jr. Seus filmes estarão presentes em cada etapa deste curso, agora em sua nona edição no Espaço Unibanco de Cinema.
TEMAS E FILMES
16 de outubro
E nunca mais fui o mesmo depois daquele filme:
O Amante, La Nave Va , Cinema Paradiso, War and Dance
23 de outubro
Morada da Infância:
Ladrões de Bicicleta, A Testemunha, Central do Brasil, Stella, Preciosa
30 de outubro, 5 de novembro
Quebrando as regras do jogo: Um tanto de ousadia e rebeldia:
Vidas Amargas, Ensina-me a Viver, Abril Despedaçado, Vicky Cristina Barcelona, Lóki, Festa de Família
20 de novembro, 27 de novembro
Ser capaz de conter cada encontro:
Encontros e Desencontros, As Pontes de Madison, O Filho da Noiva, De Olhos Bem Fechados, Ervas Daninhas, A Partida, Beleza Americana, Midnight Cowboy
4 de dezembro
O encontro se dá nas brechas e frestas:
Último Tango em Paris, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, Emma Bliss, London River
11 e 12 e dezembro
Cartas, Acordos e Abraços:
Mary e Max, História Real, Volver, Abraços Partidos, Paris Texas, José e Pilar
Carga horária: 36 horas
Informações e Inscrições: 11 3266.5115 / cursos@espacounibancosp.com.br
Curso com Ana Figueiredo
Mito e Cinema Depois Daquele Encontro - e nunca mais fui o mesmo
de 16 de outubro a 12 de dezembro de 2010 - sábados das 10 às 13h30
no Espaço Unibanco de Cinema - Anexo da Rua Augusta, 1470 - SP
O mundo será sempre muito maior que nossa vã imaginação. Não há a possibilidade de cinema sem a qualidade do maravilhamento! Walter Salles Jr.
Este é um curso de Mito:
Os mitos me falam como reagir diante de certas crises de decepção e fracasso, diante do sucesso e do maravilhamento. Os mitos dizem onde estou. Joseph Campbell.
Este é um curso de Mito e Cinema:
O conflito é interior, da ordem do indizível; alguém sai de um ponto, atravessa uma geografia, encontra algo ou alguém que vai transformar o personagem - e o personagem da largada não é mais o mesmo depois da jornada. Walter Salles Jr.
A jornada - sempre uma partida, um preenchimento, um retorno - e a história da transformação da consciência. Joseph Campbell
Serão exibidos ou comentados trechos de filmes cujas imagens e narrativas e pequenos detalhes evoquem nosso tema central:
Mostrar fragmentos do todo; priorizar o detalhe, o sutil, a diferença. Assistindo ao todo se vê o fio da história, mas perde-se o detalhe. Walter Salles Jr.
Este é um curso de Mito e Cinema e o tema do Encontro - e depois, nunca mais se é o mesmo:
Se tivesse morrido antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar minha hora.
Quando já não se espera nada, encontrei o que faltava para passar a ter tudo. José Saramago
Como ser capaz de lidar e conter cada encontro?
Quando se sonha com um prazer extraordinário e a vida proporciona a oportunidade de poder encontrá-lo, deve-se estar disponível e também preparado para pagar um preço extraordinário a fim de obtê-lo e torná-lo real. Pedro Almodóvar
Mito e Cinema Depois Daquele Encontro faz uma homenagem ao cineasta Walter Salles Jr. Seus filmes estarão presentes em cada etapa deste curso, agora em sua nona edição no Espaço Unibanco de Cinema.
TEMAS E FILMES
16 de outubro
E nunca mais fui o mesmo depois daquele filme:
O Amante, La Nave Va , Cinema Paradiso, War and Dance
23 de outubro
Morada da Infância:
Ladrões de Bicicleta, A Testemunha, Central do Brasil, Stella, Preciosa
30 de outubro, 5 de novembro
Quebrando as regras do jogo: Um tanto de ousadia e rebeldia:
Vidas Amargas, Ensina-me a Viver, Abril Despedaçado, Vicky Cristina Barcelona, Lóki, Festa de Família
20 de novembro, 27 de novembro
Ser capaz de conter cada encontro:
Encontros e Desencontros, As Pontes de Madison, O Filho da Noiva, De Olhos Bem Fechados, Ervas Daninhas, A Partida, Beleza Americana, Midnight Cowboy
4 de dezembro
O encontro se dá nas brechas e frestas:
Último Tango em Paris, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, Emma Bliss, London River
11 e 12 e dezembro
Cartas, Acordos e Abraços:
Mary e Max, História Real, Volver, Abraços Partidos, Paris Texas, José e Pilar
Carga horária: 36 horas
Informações e Inscrições: 11 3266.5115 / cursos@espacounibancosp.com.br
domingo, 19 de setembro de 2010
VMB 2010
Eu tenho outras coisas para escrever, mas são tão mais sérias que resolvi deixar para a semana que vem.
Algumas leituras me inspiraram a escrever sobre relações de comunicação e internet. A palestra da Maria Rita Kehl me inspirou a escrever sobre mãe e crianças, enfim, temas mais densos, intensos.
Mas, essa semana aconteceu o VMB 2010 e fiquei pensando por que as pessoas se chocam todo ano com o resultado?
Há 2 anos os prêmios foram todos para o NX Zero, no ano passado para o Fresno e esse ano para o Restart, a coisa mais normal do mundo.
Mas, quem reclama?
Comecei a observar os comentários no twitter, facebook, conversas de amigos dos amigos, e tava lá formado o grupo dos inconformados, inclusive parte da platéia que vaiou.
Aí é que está, quando eu era adolescente eu era 'Lado B'. Não gostava das mesmas coisas, das mesmas músicas, era o momento cultural em que os adolescentes buscavam alternativa na música, moda, cinema, para se diferenciar da massa.
Isso se tornou minha imagem no mundo, parte da minha personalidade, segui meus estudos e minha profissão buscando essa diferenciação e consegui.
Mas, a massa continua daquele mesmo jeito, Lado A, com aquilo que é repetitivo, massante, feio, desagradável e simplório.
Fico sempre pensando se hoje ainda temos Lado B entre os adolescentes ou se essa característica pertence aos jovens nascidos nos anos 70 e 80, que ouviram discos de vinil, objeto que oferece esse significante Lado A ou Lado B como significado de um qualificativo, e que hoje ainda imaginam que, como adultos formadores de opinião, podem alterar alguma coisa culturalmente.
É justamente essas pessoas Lado B que se indignaram. Elas viram no nascimento da MTV uma porta de acesso a uma cultura mais alternativa, isso foi uma realidade por 5 anos, talvez um pouco mais, mas a engrenagem da massificação toma tudo que é alternativo, incorpora, reorganiza e devolve para o mundo como o padrão e aqueles saudosos e nostálgicos de sua juventude ficam a "ver navios" (nossa, expressão interessante essa, vou pesquisar e falo na semana que vem).
É isso, ganhou Restart, ano que vem ganha outro na mesma linha, que ainda não sabemos quem é, pois vai aparecer provavelmente no ano que vem mesmo.
O melhor de tudo isso é que, algumas pessoas Lado B na sua juventude estão produzindo cultura e entretenimento no Brasil e garantem que, mesmo que os nomes alternativos não ganhem prêmios, que esses nomes circulem na mídia, que estejam indicados, que façam parte dessa engrenagem sócio-cultural de incluídos e excluídos, lado a e lado b, porque o alternativo é parte do padrão.
Algumas leituras me inspiraram a escrever sobre relações de comunicação e internet. A palestra da Maria Rita Kehl me inspirou a escrever sobre mãe e crianças, enfim, temas mais densos, intensos.
Mas, essa semana aconteceu o VMB 2010 e fiquei pensando por que as pessoas se chocam todo ano com o resultado?
Há 2 anos os prêmios foram todos para o NX Zero, no ano passado para o Fresno e esse ano para o Restart, a coisa mais normal do mundo.
Mas, quem reclama?
Comecei a observar os comentários no twitter, facebook, conversas de amigos dos amigos, e tava lá formado o grupo dos inconformados, inclusive parte da platéia que vaiou.
Aí é que está, quando eu era adolescente eu era 'Lado B'. Não gostava das mesmas coisas, das mesmas músicas, era o momento cultural em que os adolescentes buscavam alternativa na música, moda, cinema, para se diferenciar da massa.
Isso se tornou minha imagem no mundo, parte da minha personalidade, segui meus estudos e minha profissão buscando essa diferenciação e consegui.
Mas, a massa continua daquele mesmo jeito, Lado A, com aquilo que é repetitivo, massante, feio, desagradável e simplório.
Fico sempre pensando se hoje ainda temos Lado B entre os adolescentes ou se essa característica pertence aos jovens nascidos nos anos 70 e 80, que ouviram discos de vinil, objeto que oferece esse significante Lado A ou Lado B como significado de um qualificativo, e que hoje ainda imaginam que, como adultos formadores de opinião, podem alterar alguma coisa culturalmente.
É justamente essas pessoas Lado B que se indignaram. Elas viram no nascimento da MTV uma porta de acesso a uma cultura mais alternativa, isso foi uma realidade por 5 anos, talvez um pouco mais, mas a engrenagem da massificação toma tudo que é alternativo, incorpora, reorganiza e devolve para o mundo como o padrão e aqueles saudosos e nostálgicos de sua juventude ficam a "ver navios" (nossa, expressão interessante essa, vou pesquisar e falo na semana que vem).
É isso, ganhou Restart, ano que vem ganha outro na mesma linha, que ainda não sabemos quem é, pois vai aparecer provavelmente no ano que vem mesmo.
O melhor de tudo isso é que, algumas pessoas Lado B na sua juventude estão produzindo cultura e entretenimento no Brasil e garantem que, mesmo que os nomes alternativos não ganhem prêmios, que esses nomes circulem na mídia, que estejam indicados, que façam parte dessa engrenagem sócio-cultural de incluídos e excluídos, lado a e lado b, porque o alternativo é parte do padrão.
sábado, 4 de setembro de 2010
Uma Esperança
Clarice Lispector
Uma esperança
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa
para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os
quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros,
três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava
na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar
devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um
modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com
ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.
in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998
Uma esperança
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve um grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa
para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os
quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros,
três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava
na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar
devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um
modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com
ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.
in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
C'est si bon
C'est si bon,
De partir n'importe où,
Bras dessus bras dessous,
En chantant des chansons,
C'est si bon,
De se dire des mots doux,
De petit rien du tout,
Mais qui en disent long.
En voyant notre mine ravie
Les passants dans la rue, nous envient
C'est si bon,
De guetter dans ses yeux
Un espoir merveilleux
Qui donne le frisson
C'est si bon
Cette petite sensation
ça vaut mieux qu'un million
C'est tellement tellement bon
Hum, c'est bon
Voilà c'est bon
Les passants dans la rue
Bras dessus bras dessous
En chantant des chansons
Quel espoir merveilleux
Hum, c'est bon
Je cherche un millionnaire
Avec des grands "Cadillac car"
"Mink coats"
Des bijoux
Jusqu'au cou, tu sais
Hum, c'est bon
Cette petite sensation
Ou peut-être quelqu'un avec un petit yacht, non ?
Ah C'est bon
C'est bon, C'est bon
Vous savez bien que j'attends quelqu'un
qui pourrait m'apporter beaucoup de lutte(?) (is it an english
word, I don't know, if she said "lutte" (french : fight,
struggle).
Ce soir, demain, la semaine prochain(e)
N'importe quand
Hum, c'est bon
C'est bon
Il sera très crazy, non ?
Voilà, c'est tellement bon !
http://www.youtube.com/watch?v=Ib87HRYSZ8g
De partir n'importe où,
Bras dessus bras dessous,
En chantant des chansons,
C'est si bon,
De se dire des mots doux,
De petit rien du tout,
Mais qui en disent long.
En voyant notre mine ravie
Les passants dans la rue, nous envient
C'est si bon,
De guetter dans ses yeux
Un espoir merveilleux
Qui donne le frisson
C'est si bon
Cette petite sensation
ça vaut mieux qu'un million
C'est tellement tellement bon
Hum, c'est bon
Voilà c'est bon
Les passants dans la rue
Bras dessus bras dessous
En chantant des chansons
Quel espoir merveilleux
Hum, c'est bon
Je cherche un millionnaire
Avec des grands "Cadillac car"
"Mink coats"
Des bijoux
Jusqu'au cou, tu sais
Hum, c'est bon
Cette petite sensation
Ou peut-être quelqu'un avec un petit yacht, non ?
Ah C'est bon
C'est bon, C'est bon
Vous savez bien que j'attends quelqu'un
qui pourrait m'apporter beaucoup de lutte(?) (is it an english
word, I don't know, if she said "lutte" (french : fight,
struggle).
Ce soir, demain, la semaine prochain(e)
N'importe quand
Hum, c'est bon
C'est bon
Il sera très crazy, non ?
Voilà, c'est tellement bon !
http://www.youtube.com/watch?v=Ib87HRYSZ8g
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