sexta-feira, 26 de junho de 2020

Milagre da manhã - Quais as pegadinhas do método?





Fui convidada para uma live do @estilando.oficial, no instagram, e  resolvi falar dos seis hábitos chamados ‘milagres da manhã’.
Esse método, mais do que regras de conduta que garantam sucesso, serve como guia.
Vou abordar aspectos que auxiliam a perceber as pegadinhas, gatilhos, sabotagens que atrapalham o resultado prometido. E mais, apontar aquilo pode nos leva a entender para onde segue o nosso desejo, que nem sempre está de acordo com as nossas supostas vontades.
O americano Hal Elrod, escreveu esse livro, “Milagre da manhã”, depois da experiência de ter sua vida falida. É possível encontrar nas livrarias, pdf na internet e ainda audiobook. É fácil acessar. Se quiser acompanhar tudo o que ele diz, é só recorrer a isso.  
A linguagem do livro é de caráter motivacional, insistindo na repetição de exemplos e vozes de comando para que se acredite na fórmula mágica. Tirando essa maquiagem, esse trabalho de disciplina, compromisso e esforço, permite muitos resultados interessantes, tanto no campo subjetivo, nossas impressões, como no campo objetivo, o que muda na nossa realidade prática.
É interessante falar disso para as pessoas que estão com ideias ou planos e nem sabem como colocar em ação. 
Devemos lembrar que quando estamos ‘famintos’, em um grau de necessidade maior, geralmente depositamos mais energia nas nossas ações. É o momento do tudo ou nada. Mas, é justamente aí que mora uma pegadinha, pois nenhum método foi feito para ser utilizado de forma imediata. Ter uma metodologia para algo serve justamente para que isso se desenvolva num longo período de tempo, com consistência e permanência.
Sou psicanalista e lido diariamente com aquilo que escapa a tudo isso, ao bom funcionamento dos métodos, e por isso trago ‘as pegadinhas’.  Dentro da clínica, tenho a minha orientação profissional e trabalho com ela. Fora da clínica tenho meus interesses pessoais e temas que gosto de testar.
Muitas vezes temos intenções, ou mesmo disciplina, mas não chegamos lá, por travas inconscientes, geralmente. Porém, há alguns campos de conhecimento pautados em atitudes mais objetivas que podemos experimentar. Tais como esse aqui, o dos seis hábitos da manhã.
E por que pela manhã? Claro que você pode fazer à noite, se for notívago, porém, pela manhã, nosso corpo, e mente, estão descansados. Durante a noite, o corpo se refaz dos desgastes do dia. E a mente, faz uma organização dos aprendizados, vivências, impactos emocionais que sofreu. Os sonhos inclusive são parte desse processo de elaboração das experiências do dia.  Se você acorda de manhã com preguiça, investigue seu dia anterior, o que come, quanto você gasta de energia com tarefas físicas, como vai para a cama, se usa demais equipamentos eletrônicos. Tudo isso influencia no sono e consequentemente no despertar.
Os orientais geralmente dizem que precisamos pensar bem, para falar bem, para agir bem. E nesse sentido, o trabalho da mente deve passar por um processo de conhecer seu funcionamento, descobrir dinâmicas e técnicas que auxiliem na obtenção de resultados. Nossa mente comanda tudo, mas ela também mente. Ela cria ilusões e distorções, nos colocando em armadilhas feitas por nós mesmos, tanto nos pensamentos / raciocínio, o aspecto lógico, como nos sentimentos / emoções / impressões dos cinco sentidos do corpo, o aspecto estético, e ainda, no aspecto ético, que tem a ver com as nossas ações, nossa moral e nossos ideais. Por isso, seguir um método é fundamental para percebermos onde falhamos e como podemos lidar com essas falhas.
Vamos aos seis milagres da manhã.
O método consiste em acordar antes do habitual (entre uma hora e uma hora e meia mais cedo), executar as 6 atividades listadas abaixo e persistir. Todo bom método é simples, direto, sem grandes desafios de entendimento. Além disso, ele também não requer nenhum elemento muito especial, basta você e o ambiente onde estiver. Quanto mais simples, maior a chance de praticar, independente de onde esteja, colaborando para que não utilizemos as eventuais desculpas para desistir.
1. Meditação – 10 a 15 minutos
Silêncio, foco, estabilidade, quietude, concentração. Tudo isso vem com a meditação. Há inúmeras técnicas, e o interessante é experimentar até perceber qual funciona melhor. Estudos são feitos há anos sobre os resultados obtidos com a meditação. Neurocientistas conseguem apontar atividades cerebrais que indicam esses efeitos. Porém, mais do que a constatação externa, o importante é saber como isso vai funcionar para você. Sem dúvida, conseguir se ISOLAR DOS APELOS do mundo externo nos dá ALÍVIO para podermos deixar nossa mente mais limpa, clara, disponível para ver o mundo além do que acreditamos dever enxergar.

2. Afirmação – 5 minutos

Escreva suas afirmações (o que se quer, com clareza nos objetivos) e leia em voz alta diariamente

É preciso atenção já nessa segunda tarefa, pois ela pode conter inúmeras pegadinhas.
Ela deve ser tratada como um sonho, um desejo. Não podemos colocar amarras, rédeas, tentando conduzir que caminho isso deve tomar para chegar onde queremos. Sonhar, desejar, é deixar que isso fique livre para encontrar um destino. O elemento água pode nos ajudar a entender. A água flui. Sua natureza é justamente essa, fluir. Ela não tem presa, ela apenas tem um curso a seguir. Se há barreiras, limites, ela se acumula até conseguir ultrapassar esse impedimento. A água não para definitivamente, ela para temporariamente.
Uma pergunta aqui, que deve ser respondida mais com o coração do que com a cabeça, é: você quer o que você deseja? Se há uma apreensão sobre isso, reflita mais.
No yoga, temos algo parecido, chama-se Sankalpa, que significa resolução. É uma frase curta, concisa, clara e altamente evocativa. Positiva, decidida, repetida 3 vezes, de forma plena e segura, logo após a meditação. 
Use o tempo para desenvolver essa afirmação ou avaliar se a afirmação se escolheu realmente é pronunciada com segurança. Se ainda titubear, pense melhor no que quer.

3. Visualização – 5 minutos

Visualize e mentalize o que você quer.

A visualização envolve a imaginação ativa, que funciona através de um processo que inclui os sentidos corpóreos, como sentir, ouvir, cheirar, degustar e olhar aquilo que se quer. Quando sonhamos, é como se estivéssemos vivendo aquela realidade paralela. Aquelas imagens são verdadeiras, reveladoras do que se passa na nossa mente e que nem mesmo nós sabemos que estão ali, são muito pregnantes. Através disso que percebemos pelos sentidos, despertamos emoções, que indicam se uma situação é boa ou ruim, prazerosa ou desagradável, segura ou ameaçadora. Esses sentimentos devem ser incluídos, ou melhor, percebidos na imaginação ativa. A concentração que é conquistada diariamente na meditação, vai ajudar a notar o que se sente quando se vivencia alguma coisa.
A imaginação ativa é diferente do devaneio, porque este leva à dispersão, não tem foco e nem conscientização do que se está fazendo. É diferente da visualização.
Quais as pegadinhas que a gente nem sabe que são limitadoras para a realização dos nossos desejos?
Durante esse processo, perceba para onde sua mente te leva, o julgamento crítico, que voz fala com você internamente e o que ela te diz. Não recuse isso inicialmente, acolha isso mesmo que é você querendo ter uma atenção. Deixe que isso flua para que você entenda onde e porque você se trava.

4. Exercícios físicos – 10 a 30 minutos

Se você já tem o hábito de praticar atividades físicas em outros horários, opte por algum tipo de alongamento ou asanas de yoga, algo para mexer o corpo. Caso escolha fazer a atividade completa nesse horário, considere o período mais longo do método e também o tempo do banho.
Mas é muito importante saber que quando fazemos exercícios, especialmente exercícios aeróbicos, exaustivos, em que nosso corpo depois de um tempo, passa a focar no esforço, nossa mente fica livre produzir ideias, insights. Não deixe de anotar, pensar nesses inputs que aparecem na sua consciência.
O que acontece aqui é que corpo e mente são integrados e através do corpo nossa mente quer buscar prazer e evitar desprazer. Então, se durante a prática essa busca já está preenchida, alguns pensamentos que ficariam em segundo plano, entram na consciência.

5. Leitura – 15 minutos

Geralmente se pensa em ler algo que tenha a ver com aquilo que você deseja conquistar. Mais regras, mais métodos, mais experiências de superação. Mas afinal, já vimos antes, você quer o que você deseja? E mais, quanto pode uma leitura fora de um tema especifico nos inspirar sobre aquela questão que buscamos solução?
Poemas, romances, contos, a leitura de textos literários, com caráter ficcional ou poético, provocam nossas emoções, despertam outros campos, diferentes do raciocínio lógico.
As respostas às nossas dúvidas nem sempre estão onde acreditamos que elas estejam. É poder achar aquilo que nem sabíamos que procurávamos.

6. Escrever um diário – 5 a 10 minutos

A escrita de um diário serve inicialmente para você ter um interlocutor exclusivo para te dar ouvidos. Nem sempre as pessoas à nossa volta querem saber dos nossos planos e questionamentos. E aqui, além de colocar em palavras, para que qualquer um entenda - afinal, escrever é seguir regras gramaticais, usar palavras adequadas - você vai dando corpo para o que quer. Assim você pode ver como aquilo que parece claro na sua mente, nem sempre é tão claro assim.
É muito comum que no começo do diário não se saiba o que escrever direito, nem o que se deveria escrever ali. O texto geralmente vem cheio de dúvidas e expectativas. Depois, ele vai se tornando mais subjetivo, com sentimentos em relação ao que está fazendo, como está se sentindo no processo. Por fim, ele fica mais focado e objetivo. Dali podem sair os planos para a realização de algo que verdadeiramente você queira.
Escritores e poetas carregam sempre seus cadernos de notas, desenhistas vivem com seus sketchbooks, artistas em geral utilizam esse método, pois colocam ali tudo que os inspira, mesmo que aparentemente sem ter a ver com algo que estejam criando. Fica anotado, registrado. E o diário, na adolescência, é um meio de atravessar um período onde nos sentimos sozinhos, ou queremos colocar nossos melhores segredos. E nesse processo, é nosso espaço de registro, garantindo que uma história vá sendo contada.
Mais do que criar pastas no pinterest, adicionar páginas aos favoritos do seu navegador, o diário coloca o seu corpo ali no caderninho. É você ali, com o esforço de escrever, pensar, registrar. Colocar o corpo em ato é a forma de realizar algo.
 Isso tudo, no final, parece mesmo um milagre.

MILAGRE

substantivo masculino
  1. 1.
    ato ou acontecimento fora do comum, inexplicável pelas leis naturais.
    "milagres da Virgem"
  2. 2.
    acontecimento formidável, estupendo.
    "m. da medicina"
  3. 3.
    evento que provoca surpresa e admiração.
    "é um m. que tenha passado no concurso"
  4. 4.
    história do teatro
    tipo de drama medieval edificante, baseado na vida dos santos e seus milagres.
  5. 5.
    religião
    qualquer indicação da participação divina na vida humana.
  6. 6.
    religião
    indício dessa participação, que se revela esp. por uma alteração súbita e fora do comum das leis da natureza.
  7. 7.
    brasileirismoBrasil
    objeto de madeira ou cera, freq. a reprodução de uma parte do corpo, oferecido aos santos em cumprimento de uma promessa.
  8. 8.
    brasileirismoBrasil
    representação pictórica legendada do fato que originou a promessa, oferecida aos santos como pagamento de seu cumprimento.
Origem
⊙ ETIM lat. miracŭlum,i 'prodígio, maravilha, coisa prodigiosa, extraordinária'
  
"Que o teu orgulho e objetivo consistam em pôr no teu trabalho algo que se assemelhe a um milagre."
Leonardo da Vinci

"No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma não sobreviveriam." - Erich Remarque 

"Há duas formas para viver a sua vida. Uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre." - Albert Einstein

terça-feira, 2 de junho de 2020

Arthur Bispo do Rosário






A obra do artista Arthur Bispo do Rosário não pode ser descolada da sua biografia. Quando olhamos para os trabalhos de bordado ou as séries de objetos organizados de forma lógica, notamos ali muitos elementos que fizeram parte da sua história.
As informações que temos do artista são fragmentadas, carregando mistério e dúvidas. Da infância não se sabe praticamente nada. Sobre a filiação e local de nascimento, esses dados são contraditórios. Sabemos das ocupações que ele teve: a passagem pela marinha, as lutas de boxe, o trabalho de manutenção na Light, o faz-tudo em casas de família, principalmente a família Leoni, advogados do Rio de Janeiro e sua longa permanência na Colônia Juliano Moreira, instituição manicomial na qual esteve quase 50 anos da sua vida. Mas os registros não confirmam as histórias reproduzidas.
Tudo carrega uma aura mítica. Ele nasceu em Japaratuba, Sergipe, no ano de 1909, mas renasceu no Rio de Janeiro, em 1938, quando teve o grande surto, em que passou a se dizer Jesus, filho de Deus, carregando seu discurso com os delírios religiosos. A partir dali, com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide, passa a confeccionar suas obras. Vive cada vez mais recluso. Encontra meios de conseguir os materiais para a confecção da sua grande obra, o Manto da Apresentação, com o qual encontraria Deus. Ele desfazia os uniformes de internos da colônia para utilizar os fios nos seus bordados. Os funcionários, vendo esse incansável trabalho, passaram a colaborar com esses materiais. O intuito era traduzir com desenhos e palavras uma miniatura do mundo para levar para deus no dia de sua morte, o encontro com aquele que ele chamava de seu pai.
Ocupou muitas salas da colônia com suas obras. Fazia, desfazia, refazia. Não deixava que ninguém tirasse nada de lá. Não entendia como arte, mas dizia ouvir vozes, vozes que ordenavam que ele fizesse aquele trabalho, vozes de deus. A angústia dessas vozes o mantinha cativo dessa condição. Além disso, também entrava em longos períodos de mínima ingestão de alimentos, porque deveria se tornar transparente.
Bispo tinha uma frase para quem quisesse entrar no seu mundo, nas celas que continham sua obra, “qual a cor do meu semblante?, “qual a cor da minha aura?” Qualquer cor que dissessem era o passe para a entrada, não importando qual fosse.
Com a personalidade forte, ele conseguia fazer-se obedecer pelos outros internos, colaborava com os funcionários da instituição, com trabalhos e ordenação dos outros pacientes e com isso ganhava cigarros ou materiais para suas obras.  
Com a reforma da instituição, que estava largada e degradada, ele conheceu Rosângela Maria, uma estagiária que reagiu diferente àquela pergunta e como ele era tratado. O intuito dela era tirá-lo daquele estado autístico em que se encontrava, propor algum tipo de simbolização, além da própria obra. Ele reagiu a isso, criou um grande afeto por ela. Dizia que ela era diretora de tudo que ele tinha. Criou uma relação, fez obras para ela, permitiu que entrasse em seu mundo de uma forma diferente. Ela sabia que teria um fim esse trabalho e estabeleceu com ele também um processo de simbolização de uma separação.
É interessante pensar aqui a presença feminina de uma mulher alterando o estado delirante, trazendo algo que causou uma mudança subjetiva em Bispo. Ele tinha uma idéia muito rígida e moralista em relação às mulheres. Praticamente nada se sabe da vida sexual ou da sexualidade dele. Mas, diante dessa mulher, algo se revelou. Ele pede para ela se vestir diferente, quer torná-la o modelo do seu objeto de desejo. Ela resiste e segue com lucidez pelo trabalho que está fazendo. Algo aparece na obra dele nesse sentido, pois ele passa a criar um trono para ela, um ninho de amor para eles, algo particular e não apenas ‘miniaturas do mundo’ para apresentar a deus.
Nas obras encontramos tanto referências religiosas, quanto náuticas e militares. E ainda, temas de jornais sobre acontecimentos no mundo. Além do Manto, que é completamente bordado por fora e por dentro, até mesmo entre as bordas, ele também fez tais trabalhos de bordado em muitas jaquetas típicas de militares e procissões religiosas do nordeste. Se sabe que o ponto usado por ele nos seus bordados, é um ponto único, particular do artista. Ele também usou materiais que tinham sido jogados fora, quebrados, espécies de dejetos que retornam para um novo lugar, reorganizados de forma lógica. Construiu e reconstruiu objetos na sua miniatura do mundo.
Sua obra hoje pertence ao governo do estado do Rio de Janeiro, sob os cuidados do Museu Bispo do Rosário que fica dentro da Colônia Juliano Moreira. 

 Simone de Paula

"A água e a navegação tem realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer." Michel Foucault














Fontes de pesquisa
Livros
Jornalismo Cultural - Jorge Anthonio e Silva
Arthur Bispo do Rosário Arte e Loucura - Jorge Anthonio e Silva
Links
https://pt.wikipedia.org/wiki/Bispo_do_Ros%C3%A1rio
https://museubispodorosario.com/arthur-bispo-do-rosario/
https://www.escritoriodearte.com/artista/arthur-bispo-do-rosario
 

domingo, 20 de janeiro de 2019

Sociedade Literária

A vida começa diariamente. Alguns dias ela parece mais banal do que outros, especialmente porque se mostra semelhante a muitos momentos já vivido antes. Mas, em certas situações, algumas novidades ou surpresas aparecem.

Tenho escolhido, a cada ano que passa, experimentar o que vem da vida, no lugar de tentar escolher o que eu gostaria dela. Noto que o meu desejo é muito mais ligado nisso, até porque nem sempre aquilo que escolhemos nos satisfaz ou é para nós. 
Essa consciência foi despertada com a meditação. Todos que praticam dizem que é assim, que você fica desperto para a vida, para o mundo. Mas quem não pratica, ou não capta como o processo funciona, geralmente fica esperando encontrar um holofote na situação, quando na realidade, o que aparece, é uma pista. 

Há alguns anos, eu e uma amiga estudamos. Sim, só isso, estudo. Temas variados, assuntos que compartilhamos o interesse, amizade criando raízes e se desenvolvendo, e muitas ideias. Isso é algo relativamente frequente na minha vida desde sempre, ter parceiros de interesses e de estudos. O trabalho geralmente diminui as possibilidades de encontros e manutenção desse tipo de relação, mas eu consegui levar isso, porque gosto de gente e de descobertas.

Para começar o ano, esse 2019 que não sabemos ao certo para onde seguirá, visto que a paranoia nos empurrou para o sombrio, essa amiga resolveu organizar uma Sociedade Literária. Temos notícias de que em muitos momentos, a sobrevivência do pensamento vem através de reuniões em torno das letras. O objetivo é esse o mesmo, de todos esses grupos de leitura: ler e discutir algum tipo de tema. O dela, nosso, é a Comida. Já estávamos nessa investigação há um tempo e agora unimos paixões, comida e livros. Devorar cada um desses alimentos pode ser a coisa mais deleitosa que existe.O nome não poderia ser outro, já que é o lugar onde ela se encontra hoje: Sociedade Literária Pão com Manteiga.

O plano foi esse, reunir pessoas em torno da mesa, com seus livros, cabeças e línguas afiados. A comida não podia faltar e veio maravilhosamente através das suas mãos e capricho, num café-da-manhã adoravelmente delicioso. Conhecidos e desconhecidos se encontraram. A maioria de mulheres, algo costumeiro nessa nossa terra brasilis. Ali, o que vale é a potência feminina, fomentadora e revolucionária, que sabe como se amalgamar. Claro, homens são benvindos, jamais estaremos em uma guerra dos sexos. Harmonia, acolhimento, trocas frutíferas, novas amizades. 

Essas reuniões nos levarão para algum lugar, afinal, todo passo dado nos desloca de um ponto a outro. Mas para onde é que vamos, isso ninguém sabe. No entanto, na minha disposição otimista e curiosa, tanto faz, pois em é lá mesmo que chegaremos, todas juntas, ou cada uma no seu tempo, ritmo e desejo.

Começamos com um livro simpático e otimista, leve para uma manhã de sábado ensolarado de verão. 'A Sociedade Literária e a torta de casca de batata'.  E hoje, acordei ainda com uma dúvida, uma pergunta feita por uma das participantes do grupo, "das cartas lidas nesse romance, qual é a que você mais gostou?" Em torno da minha mesa, reflexiva, degustando uma nova composição para o meu desjejum, busco essa resposta.



Achei minha carta favorita!

Me vejo nos personagens de Sidney e Sophie, irmãos e interlocutores de Juliet, personagem principal. Sophie, amiga desde sempre. Acolhedora, garantia de segurança, porto seguro caso ela precise. É ela que vai saber das intimidades e segredos. E Sidney, irmão de Sophie, a parte ativa da dupla dinâmica, amigo que viabiliza as ideias e ainda cria junto, definindo uma parceria produtiva.

Porém, personagens principais trazem traços com os quais nos identificamos. Então, escolhi uma carta especial de Juliet para Dawsey, com a marca de que um detalhe estabelece uma relação. Relações são jogos. Táticas e estratégias ativadas para definir como funciona uma dupla. É interessante perceber que ele faz o primeiro movimento sempre, mas de forma tão suave, que nem sempre isso fica claro. Mas daí, ela sabe exatamente por onde caminhar.

Boa leitura!

clique na imagem para vê-la em destaque
 



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

You only live....

Era frio...
Viagem de férias... aliás, nem considero muito assim, penso mais em 'viagem', porque o motivo, é esse mesmo, ir.
 Dessa vez, de novo, tem síntese... e o desejo de fazer das anteriores, que não tiveram sua chance de aparecer registradas aqui.

Londres



O imaginário já tantas vezes construído não deixava muito espaço para a surpresa. Isso de modo algum foi ruim, mas não impactou como poderia. O frio, esperado, foi agradável. As distâncias, insabidas, foram  possíveis. O prazer de ver ao vivo, trouxe encanto.

Edimburgo


O frio apertou e com ele veio chuva. O antigo aparecia mais, marcando a presença do tempo em tudo. Um lugar quase cenográfico, visto pelo ângulo do turista. A cidade que tenta acontecer nas brechas dessa insistência da fortaleza que outrora regeu aquele lugar. Queria ter comido mais em Edimburgo. Sei que deixei por saborear tantas coisas ali.

Glasgow


Sim, uma surpresa boa. A cidade fria, mas agradavelmente aberta. Parece que tem espaços que não senti na outra cidade escocesa conhecida. Notei que a universidade me chama, porque depois de vê-la, quis morar um pouquinho ali. Volto, sei que volto.


Dublin



Merece duas fotos, pois é uma cidade diferente de dia e de noite. Preferi Dublin dia. A arquitetura, a cultura, tudo fica muito colado na versão de mundo inglesa. Podem ter se desligado da grande-mãe, mas permanecem ainda vinculados às origens. Frio, menos severo. A amplidão das ruas, parques, do rio, tudo aparece de dia. Nas noites, tudo parece pub, até as avenidas movimentadas.
Acreditei que eu entenderia a sonoridade de James Joyce. Não consegui. Mas percebi que aquela língua mistura muitos idiomas. O barulho dos pubs, com o som da música, das garçonetes, dos talheres, além da rua. Risadas e conversas. Essa é a composição genial. 


Clifs of Moher


Uau, uau, uau.... frio, vento, mar, montanhas... trilhas, medo, desejo de voar..... Os olhos não podiam se fechar. Os ouvidos só queriam escutar os silêncios atravessados pelo som do vento potente e dominante. Esses são os Clifs of Moher.

Galway



Uma belezinha no meio do caminho. Na ida de Dublin para os Clifs passamos por pequenos vilarejos encantadores. Na volta, fazemos o percurso mais interessante, porque vamos primeiro encontrar outra cidade grande da região, Galway. Dali, vamos contornando a costa, vendo o mar de um lado e as pequenas propriedades do outro. Uma delícia. Galway é a cidade de Nora, mulher de James Joyce.

Belfast



Sim, a capital da Irlanda do Norte é uma cidade pequena, bonita, espaçosa, encantadora. Muito religiosa, o que gerou uma guerra terrível. Convidativa à caminhadas, com a história do Titanic entre suas celebridades. Arte de rua, o rio entrecortando a cidade, bairros abertos às opções mais liberais, mas tudo funcionando sob controle. Vale mais um tempinho por ali.

Paris


De novo, cheguei! Agora sem guia, só com a vontade de ficar muitos dias ali. Explorar ruas, museus, comida, bebida, tudo. Muito mudou nos sete anos de distância entre a primeira visita e agora. Muito mais protestos, moradores de rua, intolerância, mal-humor. Mas Paris está ali, um museu que transpira o hoje. Incrível essa capacidade. Tudo brilha nos olhos de quem vê. Pensei em sair um ou dois dias de Paris na semana que passei ali. Mas ainda tinha tanta cidade pra percorrer, que fiquei.

Londres again

Londres Calling. Fase dois era mais intensa, tinha que ter um tantinho de rock. O frio parecia menos intenso. Nosso alojamento era num lugar diferente, mas o mais típico do clima inglês possível. Muito a percorrer, pouco tempo para tanto.



Meu coração bate, bate forte. Hoje quando perguntada sobre 'e aí?', suspirei, curti, mas não disse nada disso, não mostrei paixão, remoí o que não mais queria, mas fiz. Prometo, voltar logo, logo e dizer 'amei!"




















domingo, 19 de março de 2017

Astrologia: construindo a imagem do céu






Iniciação à Astrologia!

Venha mergulhar nos mistérios do céu e sua simbologia riquíssima.
Com duração de quatro encontros e foco no mapa natal pessoal, o curso visa a introdução aos principais conceitos astrológicos e promove o encanto por essa linguagem muito antiga que ainda faz sentido nos nossos tempos de tantas estruturas desvendadas e certezas limitantes.
Se você está sem saber o que fazer da vida, quer algum tipo de hobby para tirar a cabeça do trabalho, do crush ou da fome de inverno, aproveite seus sábados, conheça novas pessoas, veja a vida por outros ângulos.

Aula Aberta Gratuita: 26 de Agosto de 2017 – Sábado – das 08h30 às 12h30
E para quem já sabe que vai continuar, no mesmo sábado seguimos até o final da tarde e depois nos encontraremos nos meses seguintes.

Reserve seu lugar!

Maiores informações no link abaixo:
https://www.institutoluz.com.br/cursos/curso-vivencial-astrologia/

sábado, 10 de dezembro de 2016

Vale a pena

Vale a pena rever as fotos do verão passado.
Vale a pena ir na cantina comer um macarrão ao sugo dos deuses.
Vale a pena passar horas conversando com a melhor amiga quando a festa acaba.
Vale a pena ficar na praia a tarde toda.
Vale a pena correr alguns quilômetros no parque no domingo ensolarado.
Vale a pena escrever texto grande mesmo que ninguém leia.
Vale a pena, vale a pena, vale a pena.. afinal, que pena?
A expressão é entendida tomando pena como sacrifício, esforço, ou seja, algo ruim. Mas ela é geralmente usada em coisas boas, que nem envolvem tanto esforço assim. Pelo contrário, o que aparece tem o dom de deixar as coisas mais suaves, leves, ai sim, como uma pena. 
A gente brinca com as palavras, muda de contexto, muda de sentido. Nas expressões populares, nesses ditos que usamos sem pensar, a gente carrega a palavra com aquele sentido fixo, articulada com as outras palavras da sentença, e nem sempre sabemos o que estamos dizendo. Que pena!
Valeu a pena escrever esse texto. Nesse caso, a caneta que escreve, a leveza que sinto, o esforço de pensar e colocar as coisas em palavra,  o sacrifício em transformar sentimento em razão. Eu podia procurar mais, mas me basta isso aqui. 

Esta é a clássica frase da redação da fuvest um ano antes do meu vestibular. Foi tão impactante que até hoje ela ressoa nos meus ouvidos e retumba no meu coração. E eu pensava:  "Como escrever diante desse enigma de Fernando Pessoa? "








E no final da manhã de sábado, a frase que completa esse post, ouvida da musa Ana Figueiredo à respeito do filme '45 anos', de Andrew Haigh - "é bom vocês alargarem os seus cocares, os seus colares de penas, porque ela está feliz e ela não está feliz, ela está melancólica."
http://www.cafecomfilme.com.br/filmes/45-anos 
 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Psicanálise bites

Um psicanalista deve observar os jovens. É para lá que o mundo está indo.
Deve perceber do que sofrem os velhos. É lá que a moral se apega, nostálgica, medrosa diante da perspectiva do fim.
E também deve observar os adultos, máquinas da sociedade, que indicam o isolamento neurótico e narcísico em que se encontram, apostando no infinito da mecanização de seus atos.