sexta-feira, 23 de agosto de 2024

NOVOS SINTOMAS: É ISSO MESMO?

“Que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar 

em seu horizonte a subjetividade de sua época.” [1]

Jacques Lacan

Os sintomas que aparecem na clínica psicanalítica na atualidade parecem não se conformar exatamente com os modelos que a teoria apresenta. Somos surpreendidos com aparentes novidades, tanto na expressão do fenômeno sintomático, que não se enquadra bem com a definição nos termos de Freud- Lacan para sintoma [2] , quanto na resposta terapêutica que o paciente pode aceder. Mas será que as mudanças sociais e culturais produziram algo tão distinto do que já haviam observado os psicanalistas desde o final do século XIX?

A partir dessa questão, pretendo apresentar dois artigos que refletem sobre o termo ‘novos sintomas contemporâneos’, que tem sido recorrentemente utilizado para falar das patologias atuais, tais como anorexia, bulimia, toxicomania, hiperatividade, depressão adicções, pânico, e por aí vai. Optei por usar dois textos nesta resenha, porque eles se complementam naquilo que trazem sobre o assunto e podem servir para o melhor entendimento da questão.

Os textos Novos Sintomas: O que há de Contemporâneo no Mal-estar?, de Vanessa Serpa Leite e Rogério de Andrade Barros, de 2019, e Novos Sintomas e Declínio da Função Paterna: Um Exame Crítico da Questão, dos pesquisadores Rosane Zétola Lustoza, Maurício José d’Escragnolle Cardoso e Roberto Calazans, de 2014, me dão possibilidades de aprofundar o conteúdo apresentado pela professora Júlia Reis, na disciplina Clínica na Atualidade: Transtornos Alimentares e Sintomas Contemporâneos.

Serpa Leite e de Andrade Barros (2019) retornam ao conceito de sintoma em Freud e avançam até o termo ‘novos sintomas’, proposto pelos autores do Campo freudiano. Utilizam as referências freudianas de “neuroses atuais”, para estabelecer correlações com o estatuto dos novos sintomas, pouco permeáveis à palavra. Discutem dois casos clínicos como paradigma dos sintomas clássico e contemporâneo, apontando o avanço teórico e a incidência da cultura na prática da psicanálise.

Lustoza, Cardoso e Calazans (2014) examinam o caráter contraditório que existe entre o declínio da função paterna, ou da Lei social, e a inscrição do Nome-do-Pai. Afirmam que essa condição de falência da autoridade simbólica produz novas patologias, mas isso não seria assimilável com aquilo que chamamos de sintomas. Essas novas manifestações, para os autores, seriam respostas subjetivas à angústia. Através do quadro proposto por Lacan, em seu Seminário X - A Angústia - (1962/1963), apresentam os enquadres de acting-out, passagem ao ato e inibição, relacionados a fenômenos clínicos atuais. 

Já na introdução, Serpa Leite e de Andrade Barros (2019), apontam o neoliberalismo, e o discurso da ciência, relacionados com o mal-estar contemporâneo. Com isso, há a criação de novas subjetividades, em função da proliferação da tecnologia e produção de objetos de consumo imediatos. Como consequência, aparecem os sintomas padronizados, prontos para usar, na mesma lógica dos produtos expostos como mercadorias.

Continuam o texto recuperando a conceituação de sintoma feita por Freud, que foi muito atento com a variedade e a etiologia dos fenômenos histéricos, apontando a relação causal entre o elemento desencadeador e a formação do fenômeno patológico. Os autores fazem uma releitura de textos de Freud fundamentais para a teoria psicanalítica, tais como Os Estudos Sobre a Histeria (1893), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), O Mal-estar na Civilização (1930), entre outros, todos sob o viés das questões do sintoma e das intercorrências da cultura sobre eles. No entanto, eles se detêm em duas conferências em especial, de 1917, O Sentido do Sintoma e O Caminho do Sintoma, nas quais Freud destrincha a estrutura sob a qual um sintoma se forma e se manifesta. Além disso, Freud expõe tanto o modelo sintomático, através do qual o conteúdo recalcado retorna à realidade presente, mas também o que ele nomeia de ‘neurose atual’ [3] , que escaparia a essa lógica.

A estranheza da satisfação que o sintoma provoca é o que, segundo Freud (1917), vai produzir o sofrimento do qual o paciente se queixa. O sintoma é a solução de um conflito psíquico realizado em uma satisfação pulsional que aparece como incompreensível ao sujeito neurótico. (Serpa Leite e de Barros Andrade, 2019, p.112)

Sob a rubrica de ‘apresentação do problema’, Lustoza, Cardoso e Calazans (2019) se detêm na época contemporânea e a decadência dos grandes referenciais sociais. Indicam que se antes os sujeitos se norteavam por sólidos códigos que os auxiliavam a interpretar o mundo, através da tradição, religião e autoridade, colocada em algumas figuras que poderiam encarnar o grande Outro, hoje as balizas desmoronaram e não há mais uma coesão social. Há um rechaço generalizado a qualquer um que queira encampar algum lugar de exceção. Tudo é lido como artifícios de uma ficção cultural, um mero semblante. 

O foco principal de apresentação é apontar o declínio das insígnias sociais de referência e, com isso, as expressões livres de gozo com as quais os sujeitos têm que se confrontar. Os autores colocam atenção especial quanto a uma certa confusão que se faz no meio psicanalítico quando se fala de declínio da metáfora paterna e Nome-do-Pai, pois não é porque os referenciais que sustentavam o social decaíram que o significante estruturante também não está aí. Nas palavras deles, “muitos acabam assimilando de modo equívoco a decadência da lei simbólica a um apagamento do Nome-do-Pai.” (Lustoza, Cardoso, Calazans, 2014, p. 202)

Como o ponto principal do artigo de Serpa Leite e de Andrade Barros é a questão do sintoma, eles nos apresentam também outros autores, tais como Lacan, Racalcati, Tendlars, Laurent, Maleval, etc. Mas é com Jacques Alain-Miller, que aproximou a questão da toxicomania ao autoerotismo de Freud, que eles desenvolvem a lógica sob a qual é possível distinguir algo novo na manifestação sintomática atual, indicando que o mal-estar que se apresenta no setting analítico hoje está cada vez mais afastado da lógica do sentido. A antiga premissa de Freud, “onde estava o isso, deve advir o eu”, da Conferência XXXI, de 1933, - que pode ser interpretada como: tornar inteligível o que está inconsciente, encontrando o sentido por trás do sintoma, parece não dar mais conta das afetações que aparecem na clínica. Com uma pesquisa bastante robusta, eles destacam como tais autores apresentam a distinção entre a clínica clássica, com o mal-estar que cabia naquela época, e a clínica atual, com foco em gozos e demandas, diante de um Outro que não existe, ou melhor, com a operação do simbólico não conseguindo dar os limites ao real e ao imaginário, nem dar conta das demandas e imperativos de gozo que acometem os sujeitos, especialmente diante do coletivo globalizado, e ao mesmo tempo sem pertencimento.

Lustoza, Cardoso e Calazans (2014), focados nas implicações do declínio da função paterna, também apresentam uma pesquisa bastante robusta, conversando com outros autores além de Lacan, tais como Lipovetsky, Zizek, Miller, Recalcati, descrevendo consequências dessa destituição paterna, seja no campo sintomático, seja nas questões sócio-culturais. Utilizam como exemplo o filme Entre os Muros da Escola, de Larent Cantet (2008), ilustrando o que Bauman (2001) chamou de tempos líquidos. Também trabalham com a autora Alena Zupancic (2007), que faz considerações sobre a questão do vazio, que fica no lugar antes ocupado pelo grande Outro, na cultura. Questionam se realmente conseguimos lidar bem com esse lugar vazio, do pai ausente, como parecemos. Há uma ânsia por colocar alguém nesse lugar já antes ocupado. 

Por fim, Serpa Leite e de Andrade Barros apresentam o caso Elisabeth, de Freud (1893), com a questão da conversão na histeria e o sentido que tinha esse sintoma, como uma satisfação libidinal. Diante da interpretação, o sintoma pode ceder. É interessante perceber o quão complexas são as associações simbólicas para que esse sintoma possa se construir. Porém, ele pode ser desfeito. Em contraponto, apresentam um caso de Nieves Soria Dafunchio (2010), em que o sintoma que emerge é a angústia e não a conversão. É preciso primeiro construir um sintoma analítico para depois poder trabalhar com a paciente, que apresenta medo e dúvida como principais queixas. Como nos lembram os autores, a angústia já era para Freud uma das expressões das chamadas neuroses atuais.

Lustoza, Cardoso e Calazans, dizem que os chamados novos sintomas, não são exatamente sintomas, pelo menos no que pode ser considerado um sintoma no sentido de Freud e Lacan –aquilo que se articula com o campo simbólico -, porém, eles são respostas subjetivas diante do discurso atual, que incita o gozo. Os autores classificam esses novos sintomas mais próximos do acting-out, passagem ao ato e inibição. Descrevem e exemplificam como cada um desses modos subjetivos de lidar com a angústia se apresenta, delineando bem como se enquadram nas respostas atuais.

O acting out seria um ato impulsivo em que o sujeito visa sair de um impasse simbólico de forma desesperada, mostrando algo ao Outro. Tal ato pressupõe uma demanda-demanda que não é posta em palavras, mas que antes mostra alguma coisa ao Outro. (...)A passagem ao ato envolve justamente a saída do sujeito da cena. Não havendo mais lugar para si numa configuração simbólica determinada, o sujeito então se evade da cena. A passagem ao ato é o oposto do acting out: enquanto no acting o sujeito se esforça por restituir um lugar na cena do Outro, na passagem ao ato o sujeito, sem lugar na cena, se abandona à posição de resto. Por isso o sujeito na passagem ao ato não demanda mais nada ao Outro; ele não se endereça mais a ele, apenas se identifica ao resto que caiu da cena (...) A inibição não envolve a execução de um ato, mas sua ausência. Ela é a restrição de uma função do Eu, tendo como finalidade evitar um conflito. Tal conflito surgiria caso fosse realizada certa atividade, ligada àquela função. (Lustoza, Cardoso, Calazans, 2014, p.207, 208 209)

Como consideração final, Serpa Leite e de Andrade Barros insistem na importância da psicanálise no século XXI, especialmente pelo destaque que a angústia apresenta na contemporaneidade. As formas rápidas com as quais os sujeitos tentam encobrir a angústia não funcionam, e é pelo analista sustentar a falta-a-ser; poder manejar, e não suturar, as demandas dos pacientes; permitir que o falasser construa um saber sobre si; possibilitar uma amarração entre real, simbólico e imaginário, que a psicanálise é uma saída para a condição de sofrimento do sujeito contemporâneo.

Lustoza, Cardoso e Calazans (2014) fazem uma conclusão bastante longa e interessante, defendendo que as categorias psicanalíticas ainda estão vivas para dar conta dos sintomas atuais. Eles apresentam mais elementos, dando mais corpo ao texto, fazendo uma boa amarração com todos os pontos levantados. Mas também validam os estudos sobre novos sintomas, especialmente porque o que se apresenta na clínica desafia a questão diagnóstica tradicional, focada nas três estruturas: neurose, psicose e perversão, o que justifica ainda mais a função das entrevistas preliminares.

Enquanto Serpa Leite e de Andrade Barros (2019) recuperam Freud, Lacan e novos autores, para dar conta da estrutura do sintoma e colocar foco no princípio do trabalho clínico, Lustoza, Cardoso e Calazans (2014) partem dos conceitos lacanianos, e seus comentadores, tendo como atenção principal os aspectos fenomênicos dos sintomas, e por qual razão eles têm aparecido assim. Por entender essa complementaridade que os textos possibilitam sobre a questão, é que me pareceu pertinente aproximá-los aqui. Mais ainda, os textos nos despertam a vontade de voltar aos textos clássicos para rever pontos fundamentais, que nos auxiliam na clínica psicanalítica hoje, e continuar pesquisando com os autores atuais.

NOTAS

[1] Frase extraída do texto Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, de 1953, de Jacques Lacan, no qual ele faz uma advertência à prática da psicanálise.

[2] Sintoma, no sentido psicanalítico, é uma formação do inconsciente que tem estrutura de linguagem. Apesar de interpretável, sua função está relacionada com uma satisfação libidinal, nos termos de Freud, ou um gozo, nos termos de Lacan. O sintoma supõe um conflito já instalado.

[3] Penso que esse termo, neurose atual, é uma escolha bastante inteligente de Freud, por ter um significado duplo, que indica tanto a expressão de uma condição neurótica não articulada com o um trauma do passado, recalcado, quanto uma atribuição aos sintomas que se apresentam na realidade contemporânea na qual um sujeito está vivendo. É algo que se altera com as mudanças em uma nova cultura. Ou seja, atual para o sujeito, atual para o social. E isso ainda pode ser pensado com o referencial de tempo, mudanças culturais entre o século XIX e o século XXI, por exemplo, mas também em relação ao espaço, em que um sujeito, quando muda de país, vivencia situações próprias do desconhecimento de uma nova sociedade e suas regras.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUSTOZA, R.Z.; CARDOSO, M.J.d’E.; CALAZANS, R. “Novos sintomas” e declínio da função paterna: um exame crítico da questão. Ágora, Rio de Janeiro, vol. 17, nº 2, 201-213, jul.-dez. 2014. Disponível em https://doi.org/10.1590/S1516-14982014000200003 acessado em 26 de mai. 2024.

SERPA LEITE, V; de ANDRADE BARROS, R. Novos sintomas: o que há de contemporâneo no mal-estar? Revista aSEPHallus de Orientação Lacaniana, Rio de Janeiro, vol. 14, nº 27 , 110-124, nov.2018-abr. 2019. Disponível em http://www.isepol.com/asephallus/numero_27/pdf/8%20%20VANESSA%20E%20ROGERIO.pdf  acessado em 26 de mai.2024.


quarta-feira, 10 de julho de 2024

Carta de Lygia Clark para seu filho

Quais as palavras que marcam o sujeito na sua constituição? Que podem os pais transmitir da vida e da existência? 


Meu filho,

Você é um ser.

Existe na medida do mundo.

É pouco.

O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.

É a tua medida inicial.

É o teu começo mas não o teu fim.

É o chão da tua expressividade pois você é um ser vertical.

Para cima do chão há o “invisível”.

Você pode olhar os seus pés mas não a sua própria imagem.

Esta você a percebe.

Na verticalidade está a medida da sua procura.

Quando você aceitar a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.

O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.

Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do “o percebido” no seu interior.

É a própria dinâmica da vida: perde-ganha.

Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.

Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução – solução esta sempre provisória.

Aceite o provisório pois jamais o processo pode parar.

A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que você esteja voltado para sua procura interior.

Não há realidade independente do “interior de si”.

Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de uma crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.

O teu corpo meu filho, é o veículo da tua vivência.

Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro.

Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.

Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.

Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.

Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida.


de Lygia Clark, 1970.

Imagem: Helio Oiticica.



quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Mal-estar na cultura revisitado

 


Fiquei muito contente com o convite de Lúcia Santaella para fazer parte do grupo de autores que compõem esse livro e estão pesquisando sobre a cultura na atualidade.
Com o texto, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! Algumas reflexões sobre a sedução e a angústia a partir do filme O homem Ideal, produzido para a conclusão da pesquisa sobre Angústia e Sedução, realizada no Instituto Vox, entre 2021 e 2023, faço minha participação nessa coletânea.

Num breve resumo, esse trabalho que realizei pretende apresentar a relação do sujeito no espaço erótico-relacional em tempos de relacionamentos atravessados pela tecnologia e pela robótica.
O campo da sedução, fundamental para o despertar do desejo e da vivência de fantasias eróticas, modulado pela angústia, ainda funcionaria na relação com as máquinas?
O filme 'Ich bin dein meinsch', (Eu sou seu humano / eu sou sua pessoa), traduzido por I am your man, e no Brasil, O homem ideal, da diretora Maria Schrader, me serve para algumas reflexões acerca desse tema.

Venham ao lançamento, comprem o livro, leiam o texto.





POR QUE LOUCURA?

 "Sanidade é uma mentira aconchegante."[1]

Susan Sontag

Nesta resenha pretendo apresentar o capítulo 7, do livro “O que é loucura?”, de Darian Leader (2013). Nessa obra, Leader parte da premissa de que nem toda psicose é ruidosa como a cultura nos faz acreditar, através de filmes, livros e séries. A escolha do capítulo 7, intitulado “O desencadeamento do surto”, foi feita em ressonância com as aulas da professora Cláudia Henschel de Lima. Tal como Henschel, Leader (2013) traz elementos do famoso caso Schreber, analisado por Freud, a partir do seu livro autobiográfico. Além disso, trabalha com outros inúmeros autores, psiquiatras e psicanalistas, nos mostrando como a psicose vem sendo tratada, e retratada, no campo da saúde mental.

Leader (2013) inicia o capítulo 7, Desencadeamento do Surto, com um fragmento de caso clínico, que aponta o momento da ruptura do elo que mantém um rapaz de 23 anos estabilizado. O toque dos pés no chão, após o salto de paraquedas, detona a sua psicose. A frase “Eu sou Deus” anuncia o estado delirante.

Abrir o capítulo dessa forma, foi o recurso usado, como meio de conduzir o texto, indicando que após tal acontecimento, geralmente o processo de acolhimento e trabalho com o psicótico nos afasta de uma atenção mais precisa quanto às etapas envolvidas nesse processo. A observação atenta do curso do desencadeamento é fundamental para podermos evitar precipitações desse tipo, ou mesmo trabalharmos de forma adequada, quando a situação já se deflagrou. Há uma sequência bem definida e é importante que possamos especificar essas etapas. Apesar disso, Leader (2013), afirma que a maioria das pessoas psicóticas não experimenta um surto na vida.

A primeira etapa consiste em ter a impressão de que as coisas mudaram. Há uma vaga ideia de que tudo está errado ou diferente. É uma mudança na significação do mundo ao seu redor. O processo desencadeado vai seguindo uma sequência, como uma espécie de efeito dominó[2].

Já nesta primeira etapa, é possível que exista um retraimento nas relações sociais. E, por isso, nesse momento, a pessoa pode evitar atividades que antes faziam parte da rua rotina. A preocupação com o que está acontecendo tira seu interesse das atividades habituais, podendo inclusive atrapalhar sono e apetite. Isso pode acontecer de forma sutil ou muito direta, mas está relacionado a essa sensação de que o mundo mudou. É interessante perceber que o que muda é fora. Isso é um traço da psicose, algo fora do sujeito que mudou e agora é preciso encontrar o sentido pra isso.

Na segunda etapa, as novas significações que foram intuídas anteriormente, começam a se dirigir à pessoa. Passam a ser significações pessoais. As mudanças do mundo concernem ao sujeito. Porém, a significação real não é clara, o que aquilo quer dizer não é evidente para a pessoa. É nessa hora que o mundo começa a falar. Tudo começa a falar com o sujeito. É comum isso ser sentido como diretamente persecutório. Por outro lado, é possível o sujeito entender que o mundo acabou, que a realidade é vazia e monótona.

O mal-estar hipocondríaco também começa nesse ponto, mesmo que seja difícil de descrever. Nessa fase, as mudanças no corpo ainda aparecem como uma estranheza. O sujeito pode ir atrás de explicações, através de consultas médicas, informações em livros, ou internet, tentando entender o que se passa nele. Essa situação tende a ficar mais aguda posteriormente, quando uma ideia é fixada num ponto específico do corpo. Segundo Leader (2013), “Enquanto no sujeito paranoico é comum haver a impressão de que a mudança está ocorrendo no mundo a seu redor, no esquizofrênico é possível que o corpo seja o primeiro a registrar a ideia de que está havendo uma mudança” (p.115).

Numa fase posterior, a terceira, essas significações passam a ser interpretadas. Tudo assume um significado particular. É importante explorar essas ideias do psicótico porque se tratam das operações básicas de criação de significado, descobertas para dar novos sentidos ao mundo que mudou, buscando formas de manter alguma coesão, ou entender o que se passa. Há uma mobilização de significados para dar conta da experiência enigmática. Segundo Leader (2013), Lacan nomeia isso de “momentos fecundos”, que permitem a construção do delírio. Essa fase pode ser longa, mas também pode nunca acontecer, deixando o sujeito psicótico à mercê dessa constante tentativa de dar sentidos, achar uma posição ou lugar. Ao invés de criar um delírio, também é possível que a pessoa atue, através da automutilação, ou alguma forma de introduzir uma negatividade, uma distância das forças invasivas. O indivíduo precisa subtrair algo do seu corpo, ou do seu meio.

Como assinalou Colette Soler, depois da fase inicial do processo de surto, os esforços dos sujeitos psicóticos deslocam-se nessas duas direções: acrescentar algo ao mundo, por meio do delírio ou da criação, ou retirar algo do mundo, por meio da automutilação ou da mudança. Ambos constituem tentativas de curar a si mesmo. (LEADER, 2013, p. 116)[3]

Após apresentar as etapas do processo de desencadeamento do surto psicótico, Leader (2013), levanta a questão sobre o que causaria o disparo dessa sequência. Dá uma primeira resposta, através da indicação de Lacan, de que o indivíduo teria passado por uma mudança em sua ‘situação vital’. Isso pode significar perda de posição social, aposentadoria, casamento, divórcio, perda dos pais, etc. Esses são momentos conhecidos como desencadeadores potenciais. E podem se manifestar com a irrupção de alucinações ou uma instauração mais silenciosa.

Porém, o que teria de comum nessas situações que apresentam o rompimento da cadeia significante, que sustenta o sujeito enquadrado na sua vida? Todos esses momentos levariam a uma mudança na situação simbólica do sujeito, exigindo que ele assuma um novo lugar. Uma espécie de rito de passagem. É necessária uma estrutura simbólica bem definida para processar e passar por essas situações complexas.

Se a ordem simbólica não estivesse internalizada, não estaria disponível para fornecer uma rede de significações para processar os momentos de mudança. Em vez do sentido, haveria a experiência aguda de um buraco. Para Lacan, era esse o buraco que se abria no desencadear do surto psicótico. Visto que o simbólico se compunha de significantes que eram todos interligados, quando vinha a sensação de que faltava um termo privilegiado, seus efeitos se espalhavam pela rede inteira (LEADER, 2013, p.117)  

Leader (2013), segue avaliando o que seria então isso que falta. Mais uma vez inicia com a conceitualização feita por Lacan. O que faltaria na rede simbólica seria o que estaria no lugar do pai simbólico, a internalização da lei. Porém, avançando mais na questão, fundamentalmente, não era apenas a ausência desse significante que produziria o desencadeamento, mas a convocação desse significante num ponto em que a pessoa estava inserida numa relação dual imaginária com Outro. Essa fratura se dava diante de uma situação em que algo, ou alguém, se intrometia nessa dualidade, exigindo que o sujeito tivesse algum recurso para se reequilibrar diante do aparecimento de um terceiro.

Mesmo em situações aparentemente felizes, esse encontro com o elemento desencadeador pode ocorrer. Não se trata de um estado emocional de júbilo, ou frustração, que dispararia o processo. É o encontro com uma idéia, que não tem um lugar simbólico no mundo da pessoa psicótica, que promove essa ruptura. Um elemento que nunca foi simbolizado pode se impor de fora pra dentro, como formulou Lacan, “o que foi forcluído no simbólico, retorna no real.” (apud LEADER, 2013, p. 119)

Leader (2013) aponta a importância de se ter atenção para o terceiro termo simbólico, tanto quando se trata do desencadeamento do surto, quanto para a segurança do paciente. Ele se detém num caso clínico em que, por questões de técnica e posicionamento da terapeuta, esta optou por ser excessivamente neutra em relação às questões em que o paciente pedia algum tipo de tomada de posição dela, deixou escapar que algo pior poderia acontecer. E, realmente ele se suicidou. Evidentemente isso poderia ter acontecido, mesmo com outra conduta da analista. Porém, ele apresenta esse caso para introduzir o problema da posição do terapeuta diante do psicótico durante o trabalho clínico. No entanto, o tema da direção do tratamento será desenvolvido em outro capítulo do livro.

Os momentos de surto, como vimos, apontam um apelo ao significante, que deveria estruturar o nível simbólico, mas não está lá. Porém, também envolve a falta, o buraco na significação, no significado diante de alguma situação. Isso indica que nem sempre o desencadeamento acontece somente diante do terceiro. O problema com a significação, em algumas situações específicas, pode também ser um fator desencadeante. Isso aparece frequentemente no campo do amor, ou do sexo. No encontro com o desejo do Outro, o sujeito psicótico pode se ver a mercê de forças desconhecidas. Sem o respaldo de significação, nem significante que sustente algum sentido, não há bussola diante do desejo enigmático do Outro.

Os estados de excitação geralmente são fonte de ansiedade. Porém, a puberdade e a adolescência, são momentos particularmente muito complexos, que colocam à prova a estrutura do sujeito. Nessa fase, se junta o apelo social às práticas sexuais, com as demandas à tomada de uma nova posição no coletivo, E, se uma significação não foi transmitida, e recebida de forma apropriada, esses estados tendem a ser problemáticos. Por isso é comum a psicose irromper na puberdade, ou adolescência, especialmente a esquizofrenia, cujo traço principal é dar sentido ao corpo. Há uma demanda de sentido que escancara o buraco do significante forcluído.

Leader (2013), no intuito de trazer as ideias, que recorrentemente aparecem nos delírios psicóticos, nessa situação descrita acima, apresenta casos em que, diante do surto, frente ao apelo sexual, pode aparecer a questão da imortalidade. E não só isso. O sujeito ainda se vê como um ser especial, único e último no planeta, responsável pela raça humana. Essas ideias vão se formando como delírios para dar conta de algum tipo de identidade para o sujeito. Segundo ele, “A ausência da função simbólica da paternidade é a razão porque os delírios de renascimento, criação e filiação são tão comuns na psicose” (p. 125), e ainda, “como tantas vezes constatamos na psicose, a ideia não integrada de uma origem é reconstruída e reelaborada no delírio“.(LEADER, 2013, p. 125)

E assim como os inícios são complicados, os fins também. No lugar em que a mortalidade não pode ser simbolizada, aparece o delírio. A morte faz parte dos temas universais humanos, que são simbolizados e transmitidos coletivamente. Temos mitos e lendas que os retratam. Religiões que estabelecem enquadres possíveis diante desse fenômeno tão tocante como a morte. E como na psicose, a estrutura simbólica que daria conta disso, não está presente, uma coisa entra no lugar, o delírio.

Seguindo para o final do capítulo, Leader (2013) apresenta uma série de casos que exemplificam formas de desencadeamento do surto, que não se enquadram no encontro com a figura de autoridade simbólica, ou o terceiro, mas com uma situação em que a solução criada para manter a vida no lugar, esbarra num obstáculo, tal qual a confusão da significação. Os mecanismos de estabilização e compensação, que foram utilizados por anos, décadas, são subitamente questionados. Em muitos casos, como parte da construção delirante, é necessário seguir pela via da diminuição da libido em si mesmo, ou no Outro, justamente porque o simbólico não fez essa função de subtração de libido. A ideia, no psicótico, é de que a retirada de algo aplaca a perseguição. Porém, o que poderia ser colocado num plano metafórico, vai para o plano literal.

A teoria que resumimos presume que habitamos um mundo de significação e que os acontecimentos e as mudanças de nossa vida são mediados por processos simbólicos. Devemos estar aptos a simbolizar as coisas que nos acontecem, os novos papéis que nos descobrimos ocupando, as novas posições que podemos ser chamados a assumir e a proximidade do Outro que às vezes a vida envolve. Quando o apelo à estrutura simbólica fracassa – pelas razões que estivemos examinando –, pode haver o desencadeamento de um surto psicótico. Abre-se um buraco no nível do mundo imaginário do sujeito. Há um sentimento profundo de mudança. E em seguida, na maioria dos casos, há um esforço de encontrar algum tipo de solução, uma compensação, através da construção do delírio ou de qualquer atividade que prometa proporcionar uma base no ponto em que o simbólico falha. Isso pode envolver um projeto de pesquisa, uma nova profissão, uma atividade artística ou uma busca das origens, ou da verdade histórica. (LEADER, 2013, p. 129)

Uma pergunta que surge é em relação aos significantes que vão fazer a composição das ideias delirantes. Leader (2013), tanto nesse capítulo quanto nos anteriores, faz grande esforço de mostrar, através dos casos clínicos, que não são elementos aleatórios que compõem a tentativa de restauro da realidade e da vida do sujeito psicótico. Pelo contrário, são situações vividas, frases ditas e contraditas, relações distorcidas com figuras parentais, formas de abuso físico ou psicológico, que de alguma forma, criam o material de onde o sujeito psicótico vai tirar as ideias que farão parte do novo momento delirante. E, não podemos deixar de lado, o que Lacan chamou de ‘inconsciente a céu aberto’[4], em que o sujeito psicótico parece captar o que o outro pensa, o que está acontecendo no mundo externo, muitas vezes antecipando situações. Por isso, essa impressão de clarividência que acomete alguns sujeitos nesse momento de entrada no surto, e depois, é tão recorrente. Nem sempre o que pode ser considerado um delírio, não tem um significado verdadeiro, não apenas para o sujeito, mas também para o coletivo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LEADER, Darian. O que é loucura. Delírio e Sanidade na vida cotidiana. 1ª ed. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.

[1] Essa frase de Susan Sontag levanta a mesma questão que Darian Leader propõe no livro de referência para esta resenha. Ela ainda é bastante interessante, se pensarmos que todas as nossas formas de significar a realidade, por mais que sejam compartilhadas, são produções de linguagem, algo da ordem de uma invenção para saber em que posição estamos. E ainda, se considerarmos os sintomas atuais, os limites entre sanidade e loucura estão borrados e se torna cada vez mais delicado estabelecer uma certeza sobre essas posições.

[2] Efeito dominó é uma expressão que geralmente é usada como metáfora para uma situação que se inicia, e não há meio de pará-la antes de chegar ao final.  As pedras do jogo de domino são paralelepípedos que, se apoiados em uma superfície, ficam estáveis. Porém, se algo encosta nelas, tendem a cair, empurrando as demais, caso estejam uma ao lado da outra. Inevitavelmente, uma derruba a outra até que todas estejam caídas, no mesmo lugar em que antes se apoiavam. Há artistas que fazem desenhos com os paralelepípedos enfileirados, revelando uma nova imagem no final da sequência da queda das peças. Temos algo semelhante na psicose: na sequência do surto, os elementos que sustentavam uma estabilização vão caindo, e empurrando os outros, até chegar ao final do  surto. Nisso, uma nova imagem se formará. 

[3] A versão do livro utilizada nesta resenha é eletrônica, podendo variar a numeração das páginas.

[4] O aforismo ‘inconsciente a céu aberto’, de Lacan, pode ser encontrado entre os anos de 1955 e 1966. Surge na aula do dia 14 de dezembro de 1955 do Seminário 3 ([1955-1956] 2002, pp. 73-85), até a aula de 20 de abril de 1966 em seu Seminário 13 ([1965-1966] n.d., pp. 233-247), passando por outros seminários neste intervalo, além de dois textos dos Escritos.

sábado, 30 de dezembro de 2023

O Tratamento do Descontrole

 Pesquisa e transmissão do saber psicanalítico sobre os Transtornos Alimentares

Nesta resenha pretendo comentar e articular dois textos relativos às disciplinas de compulsões alimentares: obesidade, anorexia e bulimia. O primeiro é “A compulsão de comer”, das autoras Lia Amorim e Maria Amélia Martins Sant’Anna, que faz parte da revista Ágora, volume II, nº 1, de 1999, citado pela professora Cristiane Seixas, durante as aulas sobre compulsões alimentares. E o segundo, “Anorexia e bulimia, um transtorno alimentar: não se trata disso”, dos autores Tatiana Mattos do Amaral e Roberto Assis Ferreira, que faz parte da revista Médica Minas Gerais, volume 18 (4, suppl 1), de 2008, que consta na pasta de artigos compartilhados, referente à disciplina da professora Fernanda Pimentel.

O interesse pelos textos se deu pelo aspecto do trabalho clínico como suporte para pesquisa e produção no campo psicanalítico. Através de casos de pacientes que portam transtornos do comer, que pela complexidade interrogam clínicos das mais variadas especialidades, o material produzido pelos autores considera o que há além e aquém do sintoma. Propõem algum tipo de solução clínica para as questões psíquicas.

Como patologias do nosso tempo, com especificidades lógicas relativas ao contemporâneo, o trabalho com pacientes com transtornos alimentares pede multidisciplinaridade. Além disso, há de se ter disposição dos profissionais em se flexibilizar da conduta rígida de suas práticas, para que pacientes e familiares consigam se deslocar das posições fixadas em que se encontram em relação à doença. Com efeito, apostamos que algum tipo de mudança subjetiva se dê. Evidentemente é preciso que exista o pedido expresso do paciente para que o tratamento tenha uma certa aderência. Porém, são casos que geralmente carregam urgências em suas expressões. Por isso, muitas vezes os pacientes são trazidos para a clínica pelos familiares. O início do trabalho passa por construir uma transferência, possibilitar que a queixa familiar venha para a boca do paciente, como um sintoma, para aí então a queixa se tornar uma questão analítica. Assim, poderemos ter um caso clínico. Considerando que a passagem ao ato é uma realidade entre os pacientes posicionados nas citadas patologias, é imprescindível que o trabalho seja minucioso e que se considere o fator tempo como fundamental para observar efeitos e resultados.

No primeiro texto, Amorim e Sant’Anna (1999) investigam a questão do comer na obesidade e quais as saídas possíveis no tratamento com sujeitos nessa condição. O texto, estruturado em três partes, tem a primeira direcionada para a palavra compulsão, que além de constar no título do artigo, também é o elemento disparador e enigmático na questão investigada. A segunda parte, apresenta, a partir da perspectiva de Freud e da neurose obsessiva, os elementos estruturantes da obediência a um comando[1] no ato de comer: o sujeito ora permanece na hesitação, ora vai para a passagem ao ato. E na terceira parte, avançam para as possibilidades de tratamento, através dos quatro discursos que fazem laço social, propostos por Lacan. Com isso, formalizam os movimentos do obeso. Além disso, propõem saídas para as atuações nas crises de devoração. Mais ainda, oferecem uma escolha possível a partir de um trabalho de análise. 

No segundo texto, Amaral e Ferreira (2008), apresentam suas considerações acerca do trabalho com pacientes anoréxicas e bulímicas, em instituições de saúde. Mostram a importância de uma equipe multidisciplinar nesses casos mais difíceis. E ainda, contam com o suporte teórico de autores, que se debruçam nos estudos sobre essas patologias. A apresentação do texto segue o modelo padrão de pesquisa. Utilizam a introdução e a conclusão apenas para indicar ao leitor do que se trata o artigo. Fora isso, também seguem uma divisão em três partes, sendo a primeira destinada a apresentar a pesquisa, com a metodologia utilizada e o tema escolhido. A segunda, com exemplos clínicos comentados, através de fragmentos dos casos estudados, apenas no que interessa para a questão debatida. E a terceira, com resultados e discussões sobre o assunto. Insistem que o processo psicanalítico tem foco no um a um, na singularidade de cada sujeito. Porém, afirmam também que alguns aspectos são recorrentes e, mesmo que não se sintetize os casos pelo que carregam de semelhanças, também não se pode deixar de lado as particularidades que concernem a determinadas condições físico-mentais, e os sintomas que se repetem e caracterizam tais casos.

O objeto de estudo do texto “a compulsão de comer” (AMORIM E SANT’ANNA, 1999) é o obeso. Mesmo que a compulsão possa se apresentar na bulimia, com as orgias alimentares seguidas de sono ou purgação. Amorim e Sant’Anna (1999) afirmam que a palavra compulsão não revela a lógica no interior da força coercitiva que leva uma pessoa a ações ou ideias fixas, próprias dos fenômenos enquadrados sob o termo compulsão. Na verdade, se trata de um complexo. “A compulsão pressupõe um comando, que, antes de mais nada, é um barulho de fundo, contínuo e tão ruidoso na vida do sujeito, que já não é mais localizável.” (AMORIM e SANT’ANNA, 1999, p.122)

A partir do texto “notas sobre um caso de neurose obsessiva”(1909) de Freud, as autoras Amorim e Sant’Anna indicam o elemento mais sofisticado desse complexo, que é a hesitação. Esta se assemelha à relação do obeso com a comida. Nos mostram a relação de comando/ contra-comando e hesitação, tal qual apresentada na neurose obsessiva. Assim como o neurótico, o obeso também se dá conta do absurdo dos pensamentos fixos e contraditórios que vêm como ordem do Outro. E, é justamente no esforço contido nesse impasse, que se localiza o gozo que têm o obeso. Porém, o absurdo contido nesse vai-e-vem do pensamento, desmantela a hesitação. Mas o pensamento ainda continua plugado no comando e isso seda o sujeito que é tomado por um pensamento ob(seda)nte[2].

Amorim e Sant’Anna (1999) ressaltam a questão do tempo como sustentação da hesitação no pensamento obsedante, na tentativa de evitar a passagem ao ato, que nomeiam como crise de devoração.  Segundo as autoras, se trata aqui de uma tentativa de apagar a diferença entre os dois termos apresentados no comando / contra-comando, para não ter que fazer uma escolha. O obeso tenta criar uma letra única juntando os elementos contraditórios. Falha e cede ao imperativo “coma!”

Em “anorexia e bulimia, um transtorno alimentar: não se trata disso” (2008), os autores Amaral e Ferreira escolhem trabalhar com casos clínicos, em diferentes estágios do tratamento. Com isso, podem especificar tanto os elementos comuns, quando se trata de bulimia ou anorexia, como o que cabe a cada profissional envolvido no caso. Amaral e Ferreira estão em consonância com outros autores que trabalham com os casos difíceis e que envolvem as patologias da alimentação. Sob o termo “não se trata disso”, apontam o fracasso da proposta médico-terapêutica normativa da clínica da anorexia e bulimia. Há uma falha epistêmica no saber da condução dos casos, especialmente, porque são tratados a partir da universalização do fenômeno, com o restabelecimento do peso através de reeducação alimentar, em um tratamento com ênfase na medicação.

Amaral e Ferreira (2008) apresentam nove casos clínicos com elementos diversos. Optam por não designar, ou separar de forma muito discriminativa, cada um dos casos. São pacientes com estrutura neurótica e psicótica, anoréxicos e bulímicos. Trabalham com fragmentos retirados de suas falas em diferentes momentos do tratamento. Aproveitam o discurso preciso para introduzir comentários analíticos sobre a questão. Apontam um modo de escutar o sujeito que vai além do que o médico ou o psiquiatra fazem.

Seguem dois exemplos de como interpretam o que se passa no sujeito que está diante deles. No texto, iniciam com a citação da fala do paciente em itálico, e depois o comentário do analista.

Tenho vontade de ter realmente uma doença física para justificar o que eu sinto.” A questão orgânica dá uma resposta ao outro e à própria paciente. A doença tratada pelo médico visa através dos fármacos a eliminação do mal-estar localizado na doença física. Vítima de uma doença, não precisa saber o que lhe faz mal. (Amaral e Ferreira, 2008, p.8)

 

Não quero ter que responder nada. Não quero correr risco nenhum. Depois eu resolvo isso.” Ela não quer dar respostas. Não se implica com o mal estar, mas percebe que as respostas implicam em mudanças subjetivas, após um certo percurso de tratamento. Voltou a comer e voltou a estudar. Tenta alguma estabilidade. Continua muito rígida, tentando fazer existir o seu desejo. (Amaral e Ferreira, 2008, p.8)

 

Amorim e Sant’Anna (1999) não apresentam casos clínicos, como Amaral e Ferreira (2008), mas utilizam situações recorrentes da cultura, como métodos de emagrecimento e grupos de apoio.  Aproveitam também o filme “Fatso” (1980), para exemplificar uma possível forma de sair do comando através da sedução, do erótico.

Lacan, no seminário 17, traz os quatro discursos do laço social: discurso do mestre, discurso universitário, discurso da histérica e discurso do analista. Neles, através de matemas[3], articula quatro possíveis posições, tanto do lado do sujeito como do lado do Outro, para mostrar a lógica que opera o funcionamento do sujeito quando faz laço social.

Amorim e Sant’Anna (1999) utilizam esses conceitos lacanianos para propor saídas na obesidade. Destrinchando a crise de devoração no obeso, constrõem um discurso extravagante, nomeado “discurso do obeso referido à crise de devoração”. Isso se trata de uma declinação do discurso universitário, fazendo notar a inoperância da Lei, que possa barrar o gozo que o obeso obtém, se deixando invadir pelo comando.

Propõem como uma primeira saída, a Lei que opera no discurso da histérica, que coloca o saber no Outro, no médico ou no programa de emagrecimento, por exemplo. Mostram também o discurso do mestre, nos grupos de apoio de comedores compulsivos, que atribuem o comando a uma força superior. Porém, é preciso que o obeso permaneça no grupo, ou então precisará de muita força para manter essa condição de mestria no sobre-humano. Uma outra saída é através do discurso do analista, que faz semblante de mestre, permitindo que a Lei esteja em curso, mas oferece ao obeso a chance de encontrar algum meio de esvaziar o comando e fazer escolhas por si mesmo.

Percebe-se no primeiro texto que as autoras Amorim e Sant’Anna não colocam o processo analítico como a única via. Apresentam saídas através de mais de um discurso, oferecendo ao sujeito obeso opções de escolha nas formas de se enlaçar em um tratamento e reencontrar um lugar na própria vida.

Diferentemente do artigo sobre a obesidade, em que as autoras articulam através da teoria meios de trabalho, Amaral e Ferreira nos dão um amplo panorama dos principais paradigmas da clínica dos distúrbios alimentícios, pelos pacientes que receberam durante o estudo. Descrevem que as patologias geralmente são encontradas em mulheres, e desde a adolescência, indicando as questões da feminilidade. Há também os ditames da cultura que incidem sobre os sujeitos do gênero[4] feminino. A anorexia e a bulimia aparecem como duas faces da mesma moeda, onde a anorexia indica a realização do Ideal do sujeito, enquanto a bulimia representa seu naufrágio, associado à irrupção do real na cena do Ideal.

Outra consideração, é que o sintoma anoréxico-bulímico se coloca como função mediadora da distância entre a satisfação simbólica e o signo do amor. A anorexia pode ser entendida como uma tentativa de separação, de anteparo contra a invasão do Outro materno. O sintoma anoréxico-bulímico aparece próximo de um vício, como a toxicomania. Levam o leitor a perceber a complexidade dos sujeitos que assumem essa condição diante da vida e do Outro, mas não fecham esse saber que produziram através de orientações terapêuticas, inclusive porque levantam essas considerações, mas não as desenvolvem além de listá-las.

Como conclusão, Amaral e Ferreira (2008) insistem no trabalho conjunto com outros profissionais, tanto para não serem seduzidos e enganados pelas pacientes, coisa comum em casos de anorexia e bulimia, mas especialmente para que cada um possa se colocar na sua posição devida, com olhares, orientações, questionamentos, ou seja, assumindo o papel próprio e dando espaço para o outro fazer a parte que lhe cabe, se concentrando na sua própria especialidade.

No comparativo entre os textos, podemos encontrar as especificidades dos casos e das psicopatologias, além da relação dos sujeitos com o Outro. Com isso, é possível o leitor captar que não se trata do mesmo, ainda que o caso apresente sintomas semelhantes. Por outro lado, as patologias não são tão distintas assim, mesmo que carreguem sintomas completamente opostos. Aproximar os textos permite que possamos fazê-los dialogar como forma de criar novos meios de trabalhar tais casos. Pensar a anorexia e a bulimia a partir de derivações dos discursos do laço social, como Amorim e Sant’Anna (1999) fizeram, pode nos levar a construir esse lugar da Lei, ou ver se algo de um Outro numa posição de mestria, poderia servir de suporte para um tratamento mais longevo.

Por outro lado, sistematizar uma pesquisa psicanalítica com pacientes obesos, pode permitir encontrar características que se repetem entre eles. Não como forma de catalogação, mas um meio de reunir elementos de trabalho para escapar do modelo atual de tratamento, relegado aos médicos, que operam apenas com medicação, cirurgia e privações como forma de ajustar o sujeito ao meio. Além disso, pode-se conscientizar o sujeito obeso que o caso exige mais de um profissional conduzindo o tratamento. E assim, ajudá-lo a evitar a sobrecarga de expectativa que esses sujeitos tendem a colocar em cada tentativa de emagrecimento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL T.M. e FERREIRA R.A. Anorexia e bulimia: um transtorno alimentar: não se trata disso. In: Revista Médica de Minas Gerais, nov, 2008

AMORIM, L E SANT'ANNA, M.A.M. A Compulsão de Comer. In: Ágora - Estudos em Teoria Psicanalítica - vol. II, Número 1, Rio de Janeiro: Contracapa, 1999.



[1] No texto as autoras utilizam itálico para a palavra ‘comando’, como destaque da especificidade desse termo na questão abordada.

[2] A grafia da palavra foi modificada pelas autoras para ressaltar a operação psíquica que acontece com o paciente obeso e aparece nos seus atos e fala. A sedação é algo que oculta o sujeito. Elas ainda conseguem, com esse neologismo gráfico, mostrar a fórmula lacaniana que apresenta o sujeito do inconsciente, o sujeito da psicanálise: “um significante representa o sujeito para outro significante que não o representa”. E ainda, pelo uso de parênteses na palavra ‘seda’, ilustram a supressão do sujeito diante desse acontecimento que elas estão apresentando.

[3] Matemas são fórmulas concebidas como representações simbólicas de ideias e análises criadas e utilizadas por Jacques Lacan, com o intuito de assegurar a integralidade na transmissão dos seus ensinamentos.

[4] Gênero aqui colocado de forma corrente, sem entrar nas discussões atuais sobre esse termo e conceito.

Obs.: esta resenha foi apresentada como conclusão do módulo II, do curso de pós graduação em Transtornos Alimentares, Psicanálise e Cultura.



O deslizamento do significante da loucura

 

Nesta resenha pretendo comentar o texto “Enigma, Objetivação e Diluição da Loucura”, 2017, dos autores Sérgio Laia e Adriano Amaral de Aguiar, que faz parte do livro Patologia Lacaniana I: semiologia, citado pelo professor Leonardo de Miranda Ferreira, durante a aula sobre Estruturas clínicas: neurose, psicose e perversão.

No texto, os autores apresentam um percurso histórico das imagens da loucura, embasados nos estudos feitos por Michel Foucault, no seu tratado sobre o tema, intitulado História da Loucura.

 Eles nos mostram como sujeitos, não enquadrados numa razão socialmente vista como normal, foram sendo retratados através dos tempos, e as conseqüências dessa questão.

Partem dos séculos XV e XVI, pelas pinturas de Bosh e Bruegel, que contemplam isso que chamamos vulgarmente de loucura, na expressão da deformação dos corpos, incluindo o enigma que comporta essa condição humana. Nesse período, há algo trágico, místico, enigmático, na manifestação da loucura. A partir do Renascimento, com a retomada do lugar de destaque no Humano, o que ultrapassa o Homem deverá encontrar um viés inteligível, decifrável, capturando assim o mais além da subjetividade. Sobre isso Aguiar e Laia (2017) dizem:

No início do século XVII, todo o enigma e toda a dimensão trágica que inundavam as imagens de um Bosch ou de um Bruegel passaram a ser deslocados para uma região de sombras e de silêncio, diante da força dos discursos que pretendiam objetivar a loucura. (p. 11)

 

Com a chegada da Idade da Razão, faz-se necessário substituir a significação esotérica e religiosa pelo entendimento científico e racional. Ainda não havia uma sistematização do campo médico sobre a loucura, apenas um discurso higienista, que visava tirar das ruas aqueles que escapavam às leis e transgrediam a moral. Através da criação do Hospital Geral, pelo rei Luís XVI, aconteceu o chamado ‘grande enclausuramento’, com um invólucro de cuidado e atenção.

Porém, na metade do século XVIII, esse sistema prisional já sofria muitas críticas e um novo estatuto para a loucura foi criado, passando para as mãos da classe médica, se separando e individualizando em relação aos outros sujeitos classificados sob o signo da desrazão.

Essa modificação acontece concomitante ao desenvolvimento do capitalismo. Isso se faz importante, pois é condição fundamental para a separação dos loucos dos demais transgressores. Para o sistema capitalista funcionar, era preciso aumentar a mão de obra. Muitos desajustados voltam ao campo social e são colocados em postos de trabalho. Há também interesses políticos envolvidos quando se trata de tomar, os agora chamados doentes mentais, pelo viés do tratamento terapêutico. Sobre isso, AGUIAR e LAIA (2017) comentam:

Foucault ([1961] 1972) consegue dar assim um golpe mortal no ufanismo dos historiadores da medicina que viam no surgimento da psiquiatria, com Pinel e seu humanismo terapêutico, um gesto libertador. Para eles, a psiquiatria teria finalmente possibilitado que a loucura fosse reconhecida e tratada segundo sua verdade, ou seja, sua natureza de doença. (p. 12)

 

A clausura permanecia, agora através da definição feita pelo discurso médico.

Somente no final do século XIX, começo do século XX, com Freud, é que a loucura pode ter um resgate do local onde tinha sido colocada.A forma dele entender os sintomas e manifestações como uma ordem subjetiva e inconsciente, por efeito da repressão, ofereceu um novo lugar ao sujeito, menos alienado ao discurso moralizante e proibitivo em que vivia.

Já nos meados do século XX, teremos o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan, contemporâneo de Foucault, avançando nos estudos sobre a doença mental, como forma de restituir um espaço de trabalho com esses pacientes. Os autores Aguiar e Laia(2017) apresentam a teorização feita por Lacan através dos estudos de linguagem, dos conceitos de nome-do-pai e foraclusão, oferecendo um entendimento diferente para essa estrutura clínica, a psicose.  E, como se trata de um artigo da clínica psicanalítica de orientação lacaniana, trabalham com mais cuidado essa questão.

Eles avançam nesse sentido e incorporam um elemento bastante significativo dos nossos dias, a indústria, que agora está acoplada ao discurso da saúde mental, estabelecendo novas drogas no controle dos corpos. Não são mais apenas os doentes mentais os objetos de classificação e candidatos à medicalização, mas todos os sujeitos que apresentam algum tipo de desconforto e inadequação ao cumprimento dos ditames culturais e sociais na atualidade. Toda e qualquer pessoa é hoje foco dos interesses da indústria e alvo atingido pelo trabalho de marketing feito por profissionais especializados em construir necessidades que não existem.

A invenção e a arte da clínica desaparecem, deixam de estar do lado do médico e se transformam em produção dos medicamentos e seus protocolos pela indústria farmacêutica. Amedicina torna-se, ela mesma, industrializada; e os medicamentos devem ser eficazes independentemente do médico e de qualquer relação terapêutica particularizada. (...) Trata-se de uma rearticulação que implica não apenas um novo modo deexercício da medicina, mas também um novo modelo de doença.A medicinaatual não se ocupa das doenças apenas quando elas impedem o funcionamentonormal dos organismos. Ela se encarrega de um monitoramento constante dosfatores de risco que abarcam dimensões cada vez mais extensas das nossas vidas (AGUIAR e LAIA, 2017, p. 20)

 

O sujeito humano, submetido ao controle social, não pode mais fugir às regras, como forma de experimentar seus desejos, e se esforça para cumprir os papéis aos quais foi designado.

Essas alterações são possíveis, segundo os autores, pelo desenvolvimento do sistema capitalista, que precisa de pessoas disponíveis para fazer parte do corpo de trabalho. Nesse sentido, não ter eficiência, por conta de algum estado emocional, mental ou físico,ter/ser um distúrbio,causa um desalinho no sistema.

É interessante acompanhar, desde o título escolhido para o artigo,o deslocamento metonímico que opera tais mudanças, tanto no lugar em que o sujeito é colocado, da rua à instituição psiquiátrica e ao atual controle medicamentoso, bem como os nomes pelos quais ele será designado, como uma metáfora identificatória, quem ele é no meio social, louco, desajustado, doente mental, psicótico, e por aí vai.

Na Antiguidade e Idade Média, é um enigma[1] na cultura e assim produzindo-se como enigmático. Depois sendo colocado numa caixa, o chamado asilo para os loucos e alienados, excluído, enclausurado, pária social. Então, deslocado desse lugar, ganhando um novo estatuto decifrável, um objeto de investigação e nomeação, sem possibilidade de escapar ao saber médico-psiquiátrico, inclusive podendo ainda ser confinado em um manicômio, colocando assim a carga de doença mental mais delimitada. Por fim, seguindo pela diluição daquilo que já lhe foi particular, mais um entre tantos, ou nenhum, apenas transformado em dados estatísticos, falta ou excesso de bioquímicos, até chegar a ser um elemento genético.

A escolha por esse texto foi feita a partir de duas questões que me são carasno trabalho na clínica psicanalítica, não exatamente pelo exercício com psicóticos, mas como o atual discurso da saúde mental e bem-estar, associado às ofertas da indústria farmacêutica, está atravessando o processo de análise.

A primeira questão é o quanto os sujeitos estão mais massacrados pelo discurso da performance, que carrega um significado de bom desempenho no trabalho, superação. Com isso vemos a eliminação, pouco a pouco, da condição criativa que restituiria algum tipo de particularidade, diferenciação, a esses sujeitos. O termo performance, já esteve do lado da encenação, da vivência artística e hoje se deslocou para um exercício de supremacia. A interpretação de algum tipo de personagem, vivência de fantasias, agora está no dia-a-dia, representa-se a própria vida, como num palco teatral.

E a segunda, é que a cada dia é mais comum algum analisaste chegar à sessão dizendo ter ido ao psiquiatra para conseguir algum tipo de diagnóstico – solução / medicamento -para a dificuldade em ter uma vida mais plena. Esse assunto não entra em análise como uma questão, mas chega como uma informação como tantas outras que relatam durante o tempo da sessão. Com o passar dos meses, com o uso da medicação, entendem que precisam dizer que estão bem melhores, menos depressivos ou ansiosos, mais focados. Porém, isso não parece refletir algo verdadeiro naquilo que apresentam, mas revela algum tipo de enigma.

A pergunta que sucede é, essa resposta positiva significa que há uma demanda em manifestar um acerto do discurso médico? Realmente sentem algo mais brando, que nem sempre se revela nos seus semblantes? Muitas vezes, os analisantes passam a ter a fala um pouco menos enriquecida de significantes encadeados que promovam uma elaboração dos pontos traumáticos e complexos. É mais difícil desenvolverem uma linha associativa diante de alguma intervenção. Respondem apenas de forma curta, sintética e fechada.

Por outro lado, quando sai um véu ameaçador de descontrole absoluto, aprisionamento aos afetos que promovem turbulências, muitos deles acham algumas saídas melhores, mesmo que isso se dê pela inclusão de um medicamento. Podem falar com mais calma das situações e ir entendendo sua forma particular de olhar e ouvir o mundo, e comoisso podeser trabalhado. As questões que os impedem de se mover, são aliviadas. Começam novas atividades que antes nem conseguiam imaginar.

O problema aparece no momento em que a retirada da medicação acontece, pois tendem a encontrar novamente com aquele estranho neles mesmos e voltam rapidamente para o remédio.

Um ponto que me parece recorrente e relevante nesse sentido, especialmente acompanhando o texto dos autores, é a condição da fragmentação, que permanece, seja pelos lugares e nomes com que os sujeitos são delimitados, seja pelas soluções apresentadas para isso. O sujeito se depara com sua divisão, se aflige diante daquela fragmentação pela qual já passou num momento precoce de sua existência, busca formas de reparar isso, reencontrando o júbilo da imagem completa, se encontrando com essa identidade consistente que o eu busca. E um novo round se inicia, diante de um desencontro com a totalidade. Eis a repetição.

Ainda acompanho casos em que as idas e vindas do medicamento estão em curso. Aguardo para poder avaliar se esse movimento de alienação e separação do remédio, numa ida e vinda desse estado de amparo e desamparo, promovido pela medicação, associada ao processo analítico, levaria o sujeito a poder, em um determinado ponto da vida, lidar com seu sintoma, já conhecido como seu, sem a necessidade de uma droga permanente.

Como psicanalistas, entendemos a importância do trabalho de elaboração com os restos e fragmentos com os quais o sujeito humano se depara. Porém, isso não pode ser tomado pela lógica da performance, do tique-taque do tempo, pois com isso, nos enquadraríamos na mesma posição de exigência de algum tipo de modelo de trabalho.Assim como nossos analisantes, ou pacientes, somos sujeitos do nosso tempo, contemporâneos a eles. Porém devemos observar criticamente, em busca de algum tipo de separação dos apelos feitos pelo discurso corrente sobre nós. É através da clínica e da percepçãodos deslocamentos culturais que podemos conseguir algum olhar menos dominado pelo padrão atual. Como analistas, sabemos que é preciso soltar a corda com a qual nossos analisantes chegam atados. Acompanhar seus movimentos permitindo que eles encontrem algum tipo de rede se proteção nos significantes que possa ampará-los, um saber que possa se revelar e permitir que experimentem mais o desconhecido dos seus destinos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LAIA, S. e AGUIAR, A. A. Enigma, objetivação e diluição da loucura. In Patologia Lacaniana I: semiologia/ organizadores Antonio Teixeira e Heloisa Caldas. 1.ed. - Belo Horizonte: Autentica, 2017

 



[1] As palavras enigma, objeto e diluição, foram grifadas, pois se referem aos termos designados pelos autores no título do artigo, indicando o deslizamento da imagem da loucura através dos tempos.

Obs.: esta resenha foi apresentada como conclusão do módulo I, do curso de pós graduação em Transtornos Alimentares, Psicanálise e Cultura.